Apontada por influenciadores e celebridades como solução para aumentar a disposição, fortalecer a imunidade, promover o chamado “detox” e até mesmo retardar o envelhecimento, a soroterapia tem conquistado cada vez mais adeptos. No entanto, apesar da popularidade, a prática acende um alerta entre especialistas e órgãos reguladores. Recentemente, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) afirmou que não existem evidências científicas capazes de comprovar esses benefícios quando o procedimento é realizado em pessoas saudáveis.
Segundo a endocrinologista Gisele Lorenzoni, o crescimento da procura pelo método está diretamente relacionado ao apelo das redes sociais, onde são apresentadas soluções rápidas e mágicas para problemas complexos.”É compreensível que as pessoas busquem alternativas para melhorar a disposição ou prevenir doenças. O problema é quando um procedimento médico passa a ser vendido como uma solução universal, sem respaldo científico e sem avaliação individual”, pondera.
A especialista alerta que na medicina cada indicação precisa ser baseada em evidências e nas necessidades reais de cada paciente.”O fato de uma substância ser uma vitamina não significa que ela seja isenta de riscos. Nosso organismo precisa de equilíbrio. Tanto a deficiência quanto o excesso podem causar prejuízos importantes à saúde”, explica a médica.
Quando a soroterapia faz sentido?
A soroterapia consiste na administração intravenosa de vitaminas, minerais, aminoácidos e outras substâncias. Embora possa ser indicada em situações específicas, como deficiência nutricional comprovada, desidratação ou outras condições clínicas, o uso indiscriminado não é recomendado.
De acordo com Gisele, existem situações em que a administração intravenosa é uma ferramenta importante da prática médica, principalmente quando o paciente apresenta dificuldades de absorção intestinal, quadros de desidratação, deficiência nutricional importante ou outras condições que justifiquem essa via de administração. “O tratamento intravenoso tem indicações bem estabelecidas. O problema é utilizá-lo como estratégia de bem-estar sem que exista uma necessidade clínica. Antes de qualquer procedimento, é fundamental investigar sintomas, realizar exames quando indicados e entender a causa do problema”, salienta a endocrinologista.
Outro equívoco comum é acreditar que doses elevadas de vitaminas proporcionam benefícios extras ao organismo. Segundo a endocrinologista, esse conceito não encontra respaldo na ciência. “Existe uma falsa ideia de que quanto mais vitaminas melhor. Porém, algumas vitaminas, especialmente as lipossolúveis, como as vitaminas A e D podem se acumular no organismo e provocar intoxicações, além de sobrecarregar órgãos como fígado e rins”.
Além dos riscos relacionados ao excesso de nutrientes, a administração intravenosa também envolve possíveis complicações inerentes ao procedimento. “Toda infusão venosa apresenta riscos, ainda que pequenos, como infecções, flebites, reações alérgicas e complicações relacionadas ao acesso venoso. Por isso, a indicação deve ser criteriosa e sempre acompanhada por um médico.”
A especialista destaca que o interesse crescente por terapias consideradas “naturais” ou “preventivas” reforça a importância da educação em saúde e da medicina baseada em evidências e não em tendências.
A médica ressalta ainda que sintomas como cansaço, baixa disposição e queda de imunidade merecem investigação clínica, pois podem estar relacionados a doenças hormonais, deficiências nutricionais, distúrbios do sono, problemas metabólicos ou outras condições que necessitam de tratamento específico. “Em vez de buscar soluções rápidas, o mais importante é descobrir a causa do sintoma. Tratar apenas a consequência pode atrasar o diagnóstico de doenças importantes”, conclui a endocrinologista Gisele Lorenzoni.
A recente manifestação da Anvisa reforça esse entendimento ao destacar que a soroterapia não deve ser utilizada com promessas de benefícios sem comprovação científica para pessoas saudáveis e que sua indicação deve permanecer restrita às situações clínicas em que haja justificativa médica.










