Um ano após a morte da cantora Preta Gil, que tornou público o diagnóstico de câncer colorretal e ajudou a ampliar o debate sobre a doença, uma pesquisa revela que, embora a maioria dos brasileiros reconheça os principais sinais de alerta, ainda há desconhecimento sobre os exames que permitem o diagnóstico precoce.
Levantamento realizado pelo A.C. Camargo Cancer Center em parceria com o instituto Nexus aponta que 80% dos brasileiros identificam a presença de sangue nas fezes e alterações persistentes no funcionamento do intestino como sintomas graves, mas apenas 67% afirmam conhecer o exame de pesquisa de sangue oculto nas fezes, utilizado no rastreamento da doença.
Os dados foram divulgados nesta segunda-feira (20), data que marca um ano da morte de Preta Gil, vítima de complicações do câncer colorretal, nos Estados Unidos, onde realizava tratamento.
Câncer de intestino está entre os mais frequentes no Brasil
Também conhecido como câncer de intestino, o câncer colorretal é atualmente o terceiro tipo mais incidente no país, atrás apenas do câncer de próstata entre os homens e do câncer de mama entre as mulheres, segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer (Inca).
Para o triênio de 2026 a 2028, a previsão é de 53.810 novos casos por ano, crescimento de 18% em relação ao período anterior.
A pesquisa ouviu presencialmente 2.015 pessoas com 16 anos ou mais em todos os estados brasileiros e no Distrito Federal entre os dias 25 e 30 de junho. A margem de erro é de dois pontos percentuais.
Especialistas alertam para importância do diagnóstico precoce
Segundo o oncologista Virgílio Souza, do Centro de Referência de Tumores Colorretais do A.C. Camargo Cancer Center, qualquer alteração persistente deve ser investigada, independentemente da idade.
Entre os principais sintomas estão:
- Sangue nas fezes;
- Alteração persistente do hábito intestinal;
- Mudança no formato das fezes;
- Dores abdominais frequentes;
- Perda de peso sem causa aparente.
Embora esses sinais não indiquem necessariamente a presença de câncer, o especialista destaca que eles exigem avaliação médica.
“O sangramento pode estar relacionado a doenças benignas, como hemorroidas ou inflamações, mas também pode ser um dos primeiros sinais do câncer colorretal”, explica.
Apesar da gravidade dos sintomas, a pesquisa mostra que muitas pessoas ainda adiam a procura por atendimento. Entre os entrevistados que afirmaram já ter percebido sangue nas fezes, apenas 59% buscaram um médico imediatamente. Outros 36% preferiram esperar, recorreram a tratamentos caseiros ou simplesmente não fizeram nada.
Para Souza, essa demora pode comprometer as chances de cura.
“Quando o câncer é diagnosticado no início, as possibilidades de cura ultrapassam 90%”, afirma.
Dados da American Cancer Society reforçam essa diferença: a taxa de sobrevida após cinco anos chega a 91% quando o tumor é identificado precocemente, mas cai para 15% nos casos diagnosticados em estágio avançado.
Exame simples ainda é desconhecido por parte da população
O levantamento também revelou que o exame de pesquisa de sangue oculto nas fezes continua pouco conhecido, principalmente entre:
- Homens (76%);
- Jovens de 16 a 24 anos (85%);
- Pessoas com ensino fundamental (72%).
O teste detecta pequenas quantidades de sangue invisíveis a olho nu e ajuda a identificar quem precisa realizar uma colonoscopia.
A oncologista Maria Ignez Braghiroli, da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (Sboc), explica que um resultado positivo não significa necessariamente câncer, mas indica a necessidade de investigação complementar.
Segundo ela, a colonoscopia continua sendo o principal exame para prevenção, pois permite identificar e retirar pólipos antes que evoluam para um tumor.
SUS vai ampliar rastreamento
O Ministério da Saúde anunciou, em maio, que o Sistema Único de Saúde (SUS) passará a oferecer o teste imunológico fecal (FIT) para o rastreamento do câncer colorretal. A previsão é que o exame esteja disponível na rede pública a partir do segundo semestre de 2026.
O FIT é considerado mais preciso porque identifica exclusivamente sangue humano e dispensa restrições alimentares antes da coleta.
Atualmente, o Ministério da Saúde recomenda o rastreamento da doença pelo SUS a partir dos 50 anos. No entanto, outras entidades médicas defendem que a investigação comece aos 45 anos, diante do aumento dos casos em pessoas mais jovens.
Hábitos saudáveis ajudam na prevenção
Além dos exames preventivos, especialistas reforçam que mudanças no estilo de vida reduzem o risco de desenvolver câncer colorretal.
Entre as principais recomendações estão:
- Manter alimentação equilibrada;
- Aumentar o consumo de frutas, verduras e fibras;
- Reduzir alimentos ultraprocessados e carnes processadas;
- Praticar atividade física regularmente;
- Evitar o tabagismo;
- Limitar o consumo de bebidas alcoólicas.
Os especialistas destacam que a combinação entre hábitos saudáveis, atenção aos sintomas e realização dos exames de rastreamento é a principal estratégia para aumentar as chances de diagnóstico precoce e cura da doença.
Com informações de São Paulo, FolhaPress – Laiz Menezes










