Julho é tempo de malas prontas, estradas cheias e viagens em família. Mas, enquanto planejamos cada detalhe das férias, uma pergunta precisa ser feita antes de qualquer outra: quem vai cuidar daquele que depende exclusivamente de nós?
Essa resposta revela muito sobre a forma como enxergamos os animais que vivem ao nosso lado.
Eles não sabem o que são férias. Não entendem a mudança na rotina nem a ausência do tutor. Apenas sentem falta de quem representa proteção, alimento, cuidado e afeto. Para um cão ou um gato, não existe calendário. Existe apenas a expectativa de ver sua família voltar para casa.
É justamente por isso que o período de férias exige responsabilidade.
Todos os anos, cães e gatos são abandonados ou vítimas de negligência porque seus tutores não planejaram sua ausência. Alguns são deixados às margens de rodovias. Outros permanecem sozinhos em imóveis vazios. Há ainda quem acredite que deixar água, comida e um portão fechado seja suficiente para garantir o bem-estar de um animal por dias. Não é.
Abandonar ou negligenciar um animal não é apenas uma atitude cruel. É crime.
Desde 2020, a Lei nº 14.064 prevê pena de dois a cinco anos de reclusão, além de multa e proibição da guarda para quem praticar maus-tratos contra cães e gatos. O abandono, quando provoca sofrimento ao animal, também pode configurar esse crime.
Mas existe algo ainda maior do que a lei: a responsabilidade assumida quando decidimos acolher um animal. Quem depende integralmente de outra pessoa para comer, beber água, receber cuidados e proteção não pode ser tratado como um problema que se resolve durante as férias.
Esse também é o espírito da Lei Federal nº 14.916/2024, que instituiu o Abril Laranja, campanha nacional de prevenção à crueldade contra os animais. A iniciativa reforça que maus-tratos não se resumem à violência física. A omissão, a negligência e o abandono também causam sofrimento.
Como defensor da causa animal, aprendi que guarda responsável vai muito além de oferecer ração ou atendimento veterinário. Ela começa quando entendemos que um pet não ocupa apenas um espaço na casa. Ele ocupa um lugar na família.
Antes de viajar, vale fazer algumas perguntas simples: quem ficará responsável por ele conhece sua rotina? Sabe identificar sinais de dor ou de uma emergência? As vacinas estão em dia? O animal possui identificação caso fuja? O ambiente onde ficará é realmente seguro?
Responder a essas perguntas leva poucos minutos. Ignorá-las pode causar consequências para toda a vida.
Estudos publicados na revista Preventive Veterinary Medicine demonstram que quanto maior o vínculo entre tutores e animais, menores são os índices de abandono e maiores são as práticas de guarda responsável. Em outras palavras, quando reconhecemos que eles sentem medo, ansiedade, alegria e afeto, compreendemos que cuidar deles não é um favor. É um compromisso.
Viajar faz bem.
Descansar faz bem.
Criar memórias em família faz bem.
Mas nada disso pode acontecer às custas do sofrimento de quem sempre esteve ao nosso lado.
As férias acabam.
A responsabilidade não.
Porque, no fim, o destino da viagem importa menos do que o destino que damos àqueles que confiaram a vida deles aos nossos cuidados.









