João Gualberto Vasconcellos
João Gualberto Vasconcellos
João Gualberto Vasconcellos é mestre e professor emérito da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Doutor em Sociologia pela Escola de Altos Estudos em Ciência Política de Paris, na França, Pós-doutorado em Gestão e Cultura. Foi secretário de Cultura no Espírito Santo entre 2015 e 2018.
A opinião dos colunistas é de inteira responsabilidade de cada um deles e não reflete a posição de ES Hoje

Meu nome é Francisca

Todos nós sabemos que a história brasileira, como é narrada tradicionalmente, esconde mais do que mostra os fatos e feitos que construíram a nossa trajetória. São grandes as lacunas que precisam ser preenchidas para que possamos entender melhor que povo somos, que cultura temos e quais são os traços mais marcantes na construção do nosso imaginário social. Há algumas semanas, lembrei isso aos meus leitores, por meio dos comentários sobre o extraordinário Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves, um clássico de nossa literatura contemporânea.

Hoje, volto para tratar da obra de outra historiadora importante da atualidade, Mary Del Priore. Ela esteve recentemente em Vitória para proferir uma palestra, aliás excelente, sobre a história da velhice no Brasil, a convite da Academia Espírito-Santense de Letras e da Assembleia Legislativa, marcando uma parceria intelectual muito interessante para o nosso Estado.

Eu já havia escrito sobre o livro de Del Priore que trata do mesmo tema da palestra: a velhice no Brasil. Ganhei da autora um outro livro de sua autoria, dessa vez contando fatos conhecidos por todos nós: Meu Nome é Francisca: uma história de Chica da Silva. Ela usa um recurso narrativo muito interessante: escreve como se fosse a própria personagem. Trata-se de um romance histórico, baseado na história real de uma personagem e nos fatos ocorridos em torno dela, sem precisar de uma descrição estrita dos fatos, havendo lugar para alguma criatividade ficcional.

Chica da Silva nasceu, segundo o que está no livro, entre 1731 e 1735, no arraial do Milho Verde, perto de onde está hoje localizada a cidade de Diamantina, em Minas Gerais. A Capitania das Minas Gerais, como todos sabemos, era lugar de prosperidade em função da descoberta do ouro e das pedras preciosas. Na época, era o lugar de maior dinamismo da economia brasileira, não somente pela extração das valiosas pedras e do metal mais nobre, mas também por toda a cadeia de negócios que isso gerava em termos de comércio e serviços.

Os portugueses transferiam-se em massa para as Minas Gerais, chegando mesmo a esvaziar muitas cidades de seu país de origem. Isso se associava a um outro elemento comum na sociedade brasileira daquela época: o aporte, também em grande escala, do trabalho dos escravizados de origem africana. Não havia no Brasil trabalho que não fosse dos escravizados. Os homens e as mulheres brancas não levantavam peso nem carregavam qualquer objeto, muito menos desempenhavam trabalhos que exigissem força física. Na verdade, no mundo colonial brasileiro, trabalho era o mundo dos negros, já que o colonizador não obteve sucesso em utilizar a mão de obra dos povos originários nessas tarefas.

O ouro das Minas Gerais foi todo extraído de seus locais de origem pelo trabalho especializado de africanos que aqui chegaram para essa atividade. A riqueza extraída era muito grande, e havia casos em que os escravizados conseguiam esconder pequenas pedras, engolindo-as ou prendendo-as nos cabelos, por exemplo; quando as vendiam, compravam a própria alforria e continuavam a busca por mais riquezas. A autora fala de Quitéria Alves da Fonseca, originária da Costa da Mina, que comprou sua libertação e tinha seis escravizados: três homens e três mulheres, que trabalhavam na faiscação e na prestação de serviços.

Essa mobilidade social possibilitada aos africanos e seus descendentes, que eram especializados na mineração já praticada em África e inexistente em Portugal, é um elemento importante para explicar a construção de nossa cultura e de nosso imaginário social. Muitos enriqueceram e puderam dar educação a seus filhos, exatamente como fez Chica da Silva, garantindo um novo lugar na sociedade que se estabelecia, com maior participação dos descendentes de homens brancos com mulheres negras.

O perverso regime da escravidão negra – uma das maiores tragédias da humanidade – foi dando origem a um povo de pele morena, os pardos, como dizemos hoje, e, assim, foi também dando origem aos brasileiros. A história das nossas massas e elites também é a história dessa miscigenação étnica e também de um enorme hibridismo cultural. A sociedade brasileira tem traços enormes desses encontros, marcados pela hierarquia e pela desigualdade, mas forte o suficiente para deixar muitas heranças.

Temos uma cultura fortemente marcada pela presença africana, na culinária, no gestual, na forma de andar, na língua que falamos. Mas, por muito preconceito, não damos o valor que esses elementos têm. Precisamos entender e valorizar todas essas heranças culturais que fazem, como já sinalizou Roberto DaMatta, o “brasil”, Brasil.

João Gualberto Vasconcellos
João Gualberto Vasconcellos
João Gualberto Vasconcellos é mestre e professor emérito da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Doutor em Sociologia pela Escola de Altos Estudos em Ciência Política de Paris, na França, Pós-doutorado em Gestão e Cultura. Foi secretário de Cultura no Espírito Santo entre 2015 e 2018.

Você por dentro

Receba nossas últimas notícias em primeira mão.

Escolha onde deseja receber nossas notícias em primeira mão e fique por dentro de tudo que está acontecendo!

Comentários

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Mais Lidas

Notícias Relacionadas

[the_ad_group id="63695"]