João Batista Dallapiccola Sampaio
João Batista Dallapiccola Sampaio
Advogado de balcão há 39 anos, especialista em direitos sociais, graduado pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), pai orgulhoso e avô realizado
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A voz de Salomão e a voz da advocacia

A voz da sociedade quando o advogado é calado, está se calando a sociedade

A história registra poucos governantes cuja voz foi capaz de transcender o tempo e transformar-se em símbolo de sabedoria e justiça.

Entre eles, destaca-se o rei Salomão, cuja capacidade de governar não se restringia ao poder do trono, mas se manifestava, sobretudo, na autoridade de suas palavras.

Mais do que um soberano dotado de riquezas e prestígio, Salomão foi um líder cuja voz representava a expressão da prudência, da justiça e da defesa dos interesses do povo de Israel. Suas palavras possuíam credibilidade porque eram proferidas com independência, discernimento e compromisso com o bem comum.

Ao longo de seu reinado, o poder de sua voz revelou-se instrumento essencial para a manutenção da paz, para a solução dos conflitos e para a consolidação de um governo reconhecido pela sabedoria.

A autoridade de Salomão não estava fundada apenas na força do cetro, mas na força da palavra.

Essa realidade permite estabelecer um interessante paralelo com a advocacia contemporânea.

Assim como Salomão representava uma nação e utilizava sua voz para promover a justiça, o advogado, nos dias atuais, representa os cidadãos e faz da palavra o principal instrumento de defesa dos direitos e garantias fundamentais.

Nesse contexto, a liberdade de expressão e a independência funcional assumem papel de destaque, pois somente por meio delas é possível assegurar que a voz da advocacia continue sendo um instrumento de proteção da cidadania e de fortalecimento do Estado Democrático de Direito.

As Escrituras Sagradas revelam que Salomão recebeu de Deus a sabedoria necessária para governar o povo de Israel.

Entretanto, essa sabedoria somente poderia produzir resultados concretos porque era exteriorizada por meio da palavra.

Foi através de sua voz que Salomão solucionou controvérsias, orientou a nação e consolidou um reinado marcado pela prosperidade e pela estabilidade.

Sua palavra não era um mero instrumento de autoridade política, mas um verdadeiro mecanismo de promoção da justiça.

A solução do conflito nasce da inteligência, mas foi a palavra do rei que tornou possível a concretização da justiça.

A voz de Salomão representava a voz de uma coletividade. Suas decisões não eram voltadas aos interesses particulares do monarca, mas aos interesses do povo que ele governava.

A autoridade de sua palavra encontrava fundamento na responsabilidade de representar toda uma nação.

Não havia verdadeira liderança sem liberdade para se manifestar.

A força de Salomão não residia apenas em sua posição de rei, mas na possibilidade de fazer uso de sua voz em favor da justiça e do interesse coletivo.

Sob essa perspectiva, percebe-se que a palavra constitui um dos mais importantes instrumentos de representação social. É por intermédio dela que os conflitos são solucionados, os direitos são protegidos e a paz social é preservada.

Nos tempos atuais, a advocacia exerce função semelhante àquela desempenhada por Salomão em relação ao povo de Israel.

Embora em contextos distintos, ambos possuem em comum a missão de representar interesses alheios e promover a justiça.

O principal instrumento de trabalho do advogado é a palavra.

É por meio dela que se constroem teses jurídicas, que se apresentam razões perante os tribunais e que se assegura a defesa dos direitos dos cidadãos.

A voz da advocacia é, em essência, a voz da sociedade.

O advogado empresta sua técnica, sua experiência e sua capacidade argumentativa para fazer chegar ao Poder Judiciário e às instituições públicas os anseios daqueles que representa.

Nesse sentido, a Constituição Federal de 1988 reconheceu a indispensabilidade do advogado à administração da justiça, atribuindo-lhe posição de destaque na preservação do Estado Democrático de Direito.

Entretanto, a efetividade dessa missão depende da existência de garantias institucionais capazes de assegurar a liberdade necessária ao exercício da profissão. Sem independência e sem liberdade de manifestação, a voz da advocacia seria silenciada, comprometendo a própria proteção dos direitos fundamentais.

Assim como Salomão utilizava sua palavra para governar em favor do povo, o advogado utiliza sua voz para promover a defesa dos cidadãos e contribuir para a realização da justiça.

O poder da voz da advocacia encontra fundamento na Constituição da República, no Estatuto da Advocacia e nos princípios que regem o Estado Democrático de Direito. Trata-se de uma voz institucional, destinada à proteção dos direitos e das liberdades públicas.

A voz de Salomão não era utilizada em benefício próprio. Sua palavra possuía uma finalidade pública e destinava-se à promoção da justiça e do bem comum.

O mesmo ocorre com a advocacia contemporânea. Quando o advogado se manifesta em juízo, sustenta uma tese ou aponta ilegalidades, não está defendendo interesses pessoais, mas exercendo uma função constitucional em benefício da sociedade.

Por essa razão, toda tentativa de restringir a liberdade de expressão da advocacia representa uma ameaça não apenas ao profissional, mas ao próprio cidadão, que necessita de uma defesa independente para assegurar seus direitos.

A voz do advogado não é patrimônio particular. Ela constitui um instrumento de cidadania, indispensável ao funcionamento da democracia e à preservação das liberdades fundamentais.

Assim como a voz de Salomão ecoava em favor de toda uma nação, a voz da advocacia contemporânea deve permanecer livre para ecoar em favor da cidadania, da justiça e da democracia.

O reinado de Salomão demonstra que a verdadeira autoridade não se sustenta apenas no poder formal, mas na capacidade de utilizar a palavra como instrumento de promoção da justiça e de representação do povo.

Sua voz tornou-se símbolo de sabedoria porque estava a serviço da coletividade e orientada pelo compromisso com o bem comum. O poder de sua palavra ultrapassou os limites de seu tempo e permanece como referência de prudência e responsabilidade.

De maneira semelhante, a advocacia contemporânea exerce sua missão por meio da força da palavra e da liberdade de expressão. A voz do advogado representa a voz dos cidadãos e constitui instrumento essencial para a defesa dos direitos fundamentais.

A preservação da voz da advocacia representa a preservação da própria democracia. Assim como a palavra de Salomão foi essencial para a condução de seu povo, a voz livre da advocacia permanece indispensável para a proteção da cidadania, para a concretização da justiça.

***

Este artigo foi escrito com a colaboração de Antônio Augusto Genelhu Junior – presidente do Instituto dos Advogados Capixabas (IAC) e advogado há mais 50 anos. Texto baseado em brilhante palestra ministrada em 16/06/2026, no encontro “SOU TRABALHISTA!”, com o tema “A VOZ DA ADVOCACIA” pelo Doutor Genelhu

João Batista Dallapiccola Sampaio
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Advogado de balcão há 39 anos, especialista em direitos sociais, graduado pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), pai orgulhoso e avô realizado

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