Autointitulada “Tropa da Finlândia”, ligada ao Comando Vermelho, uma organização criminosa teve nove integrantes presos nesta terça-feira (30) durante a Operação “Libertar”, na Praia Grande, em Fundão. Três irmãos seriam apontados como lideranças do tráfico de drogas na região; dois deles foram presos durante a ação. O grupo fornecia armamentos, drogas e outros serviços à facção CV.
De acordo com o delegado-geral da Polícia Civil do Espírito Santo (PCES), Jordano Bruno, a ação foi realizada pela Delegacia de Polícia (DP) de Fundão e teve como finalidade cumprir mandados de prisão e de busca e apreensão contra criminosos que atuam na região. Participaram da operação 80 policiais civis, distribuídos em 20 viaturas. Ao todo, foram cumpridos nove mandados de prisão, além de diversos mandados de busca e apreensão.
Facção atua com divisão de tarefas e controle social
Segundo o titular da DP de Fundão, delegado Leandro Sperandio, os integrantes do grupo “Tropa da Finlândia”, que teriam ligação com o Comando Vermelho, são lideranças locais que se aproximaram da facção e mantêm relacionamento com ela, criando essas denominações próprias para delimitar território, embora permaneçam vinculados ao CV.
“E a gente percebe que a estrutura da organização criminosa é muito semelhante, com divisão de tarefas. As práticas que eles realizam nas comunidades também são muito parecidas, práticas importadas e copiadas dessas facções”, afirmou.
O delegado afirmou que eles fornecem armamentos, drogas e replicam uma forma de atuação nas comunidades, chegando a prestar serviços sociais para parte da população, além de realizar pichações em muros, obstruir vias e exercer um controle comportamental na região.
“Se algum morador se sente incomodado ou tenta instalar uma câmera de segurança na rua para proteger sua casa, mas isso de alguma forma atrapalha o tráfico de drogas, ele é impedido. Em alguns casos, dependendo da situação, o morador pode até ser expulso da comunidade, como já ocorreu em bairros e corredores da região”.

Segundo o delegado, a associação a facções criminosas funciona como uma espécie de “seguro” para esses grupos.
“Um exemplo é a perda de drogas: se houver apreensão, no dia seguinte ocorre a reposição do material. Se os grupos sofrem ataques e não têm armamento próprio, facções maiores, como o Comando Vermelho e o PCC, fornecem e emprestam esse armamento. Se ele precisa de dinheiro, há também empréstimo. Então, ele passa a ter uma estrutura, mas se torna cliente daquela facção. Se eu vendo um milhão em drogas no bairro, vou comprar esse um milhão de quem? Da facção à qual estou associado”, mencionou.
O delegado completou ainda que o “apoio” vai além de armas e drogas: “Só que não vem só a droga, vem toda essa estrutura. Advogado, contratação de defesa, ajuda ao familiar quando tem um faccionado preso. Então, aquele familiar passa a receber um auxílio, uma ajuda. Às vezes, um emprego, mas um emprego no tráfico de drogas. Então, tem toda essa estrutura por trás, muito bem organizada. Às vezes, ali naquele bairro, não tem esse grau de sofisticação e organização”.
Estar faccionado para não morrer
Ainda de acordo com o delegado Leandro Sperandio, estar faccionado é uma forma de não ser executado. “Hoje, você não vai a nenhum lugar ver um traficante vendendo droga por conta própria. Porque, se ele não estiver ligado a ninguém, vão passar ali, vão executá-lo ou expulsá-lo e tomar aquele ponto de venda de droga”, frisou.
Leandro Sperandio explicou que o município de Fundão registrou apenas um homicídio neste ano, o que representa uma redução significativa nos índices. Ele afirmou que a intenção é “libertar” a comunidade desses vieses criminosos e destacou que, na sequência, as ações avançaram para o litoral de Aracruz, onde foi realizada a primeira fase da operação, com nove pessoas presas e cinco foragidas.
“É um grupo criminoso que atua no bairro Direção e que acaba se irradiando para um trecho de Nova Almeida, na Serra, que faz divisa com a região, com o tráfico de drogas. Começou antigamente, com moradores locais, pessoas criadas na comunidade, mas que agora passaram a tentar estruturar uma facção criminosa, com obstrução de vias, delimitação de territórios por meio de pichações, expulsão de moradores que vão contra os interesses deles e tentativa de domínio territorial”.

De acordo com o delegado, esse tipo de comportamento muitas vezes gera uma falsa sensação de segurança e incomoda mais a população do que outras atividades criminosas.
“Então, a gente tem essa preocupação, essa sensibilidade, que mesmo que não tenha homicídio na região, se há indicativos desse tipo de comportamento, de tentativa de domínio territorial, ele vai entrar dentro da diretriz de planejamento e vai ser uma priorização de uma operação dessa natureza”, frisou Leandro Sperandio.
Antes das prisões
A operação foi motivada por ações anteriores da Polícia Militar e da Polícia Civil, que haviam realizado apreensões volumosas de drogas enterradas em áreas de mata, prática considerada típica do grupo. Esses entorpecentes eram escondidos em regiões já sob domínio dos suspeitos. A fase atual da operação teve como foco identificar parte dos integrantes da organização e efetuar prisões qualificadas.
“Foi o que nós realizamos, com nove prisões e cinco foragidos. Vamos continuar agora para capturar esses cinco foragidos e teremos outras fases para identificar outros membros que, porventura, tentarem ocupar esse espaço, para que possamos repetir o trabalho que foi feito em Fundão Sede, colocando uma barreira para impedir o avanço dessas ações para o interior do Estado. Então, a nossa missão é asfixiar esses grupos criminosos”.
Ainda segundo o delegado, um dos irmãos seria o “01” e não foi capturado na Operação “Libertar”, estando entre os foragidos.
“Ele não mora no bairro e é alvo da investigação. Apesar da fuga, o integrante 02, que não é um dos irmãos, mas é uma figura importante na região, foi preso e tinha a função de gerente geral, com atuação marcada pela violência e pela chamada ‘carga pesada’”.
O delegado salientou ainda que o que chama a atenção é o histórico criminal desses suspeitos, já que muitos respondem por homicídios. Dois deles, inclusive, estavam com tornozeleira eletrônica.
Presos durante Operação Carga Pesada
Um dos presos durante a Operação Libertar já havia sido alvo de outra investigação da Polícia Civil. Em 2021, ele foi um dos investigados da Operação Carga Pesada, que teve como foco organizações criminosas suspeitas de furtar, desmanchar e revender caminhões no Espírito Santo.
Deflagrada em março de 2021, durante a pandemia de Covid-19, a operação foi resultado de uma investigação que durou cerca de 16 meses. Segundo a Polícia Civil, os grupos investigados teriam participado do furto de mais de 300 caminhões no Estado.
Na época, a ação resultou na prisão de três suspeitos que tinham mandados de prisão em aberto e no cumprimento de 16 mandados de busca e apreensão nos municípios de Cariacica, Serra, Fundão e Castelo.
De acordo com as investigações, os alvos atuavam diretamente no furto de veículos de carga, além de integrar um esquema de revenda e desmanche dos caminhões roubados.

A 2ª fase da Operação Carga Pesada, realizada nos últimos três meses, resultou na prisão de 11 pessoas na região de Nova Almeida, na Serra, e em Praia Grande, em Fundão. Durante a ação, cinco armas foram apreendidas e outros sete envolvidos foram identificados e permanecem foragidos.
Com base nas informações da 1ª fase, foi realizada uma força-tarefa com equipes da Delegacia de Investigações Criminais de Aracruz e da Delegacia de Polícia de João Neiva. Ao todo, 24 inquéritos policiais serão concluídos.
As investigações apontam ainda que os presos seriam responsáveis pelo roubo de pelo menos 24 caminhões, com faturamento estimado entre R$ 30 mil e R$ 40 mil na revenda de peças. Segundo o titular da Deic de Aracruz, delegado Rodrigo Peçanha, o grupo também chegava a chantagear proprietários de caminhões.
O delegado-geral da PCES, Jordano Bruno, completou ressaltando que há 14 meses foi iniciada uma operação em Fundão, com prisões iniciais e novas fases ao longo do período, incluindo uma terceira etapa em novembro, com 20 prisões. Na sequência, a captura de foragidos levou a um total de 54 prisões de pessoas estruturadas e, segundo a investigação, ligadas a grupos criminosos com forte conexão ao Comando Vermelho, como mencionado pelo delegado.
“Os suspeitos estavam concentrados na sede de Fundão, na região da BR, em áreas de circulação entre municípios. A atuação, segundo a investigação, vai além da redução de homicídios”, disse.
Ele encerrou informando que a equipe vai continuar atuando no local: “A Polícia Civil vai continuar agindo, atuando com o apoio da Polícia Militar, do Núcleo de Operações e Transporte Aéreo, da Secretaria de Justiça, Polícia Penal e Polícia Científica”.











