Receber o diagnóstico de um transtorno mental ainda significa enfrentar duas batalhas no Espírito Santo: a doença e o preconceito. Apesar do avanço da rede pública de saúde mental no ES e do aumento expressivo pela procura de tratamento nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), pacientes que convivem com depressão, ansiedade, esquizofrenia, transtorno bipolar e dependência química ainda enfrentam discriminação, barreiras para conseguir emprego e dificuldades para permanecer nos serviços de saúde.
Aos 34 anos, “Leonardo” (nome fictício), diagnosticado com esquizofrenia desde os 21, conta que precisou compreender a própria condição para retomar a vida.
“Era uma internação atrás de outra até eu compreender o que eu tinha e que era uma doença que eu teria que conviver pelo resto da vida. Mas eu descobri que poderia viver normalmente fazendo o tratamento e tomando os remédios. Demorou, mas eu me conscientizei. Mas as pessoas ainda não”, relata.
Hoje, ele prefere esconder o diagnóstico no ambiente de trabalho para evitar o isolamento.
“Quando contava, as pessoas se afastavam com medo de eu ter uma crise ou tentar matar alguém. Pedi demissão de dois empregos por causa disso. É muito triste ver as pessoas te olhando com medo”, lembra.
Atualmente, Leonardo dá total atenção à sua saúde mental e aprendeu a “ouvir os sinais” que seu corpo dá para evitar novas crises, combinando a medicação ao autoconhecimento:
“Eu sei quais são os gatilhos que podem me fazer entrar em crise, como situações de forte pressão, briga ou gritaria e estresse. Parece que acende uma luz em mim e eu recuo. Não quero mais viver como vivia, uma crise é terrível. Eu ouvia vozes e comandos nada bons na minha mente”, desabafa.
Preconceito familiar e desemprego barram tratamento de transtornos mentais
A dona de casa “Margarida” (nome fictício) também sente na pele o peso do estigma. Ela deixou o trabalho para cuidar da filha de 22 anos — uma jovem loira e bonita, cujos olhos refletem tristeza mesmo quando sorri —, que desenvolveu síndrome do pânico, transtorno obsessivo compulsivo (TOC) e depressão após o uso de drogas.
“Minha família virou as costas para nós, a começar pelo pai dela, que não aguentou a pressão e foi embora. Minha filha não usa mais drogas, mas as consequências deixaram ela num estado deprimente”, conta a mãe.
Margarida relata a dor de acompanhar a instabilidade diária da filha, que alterna momentos de esperança com crises de severa insegurança.
“Gosto quando ela está bem, falante e com planos para o futuro, mas não demora muito ela fica triste, desconfia dela mesma e acredita que o mundo a despreza. Isso corta meu coração de mãe”, lamenta.
Essas histórias reais refletem uma barreira institucional percebida em diferentes municípios capixabas:

Guarapari: A Secretaria Municipal de Saúde aponta o preconceito dentro das próprias famílias e a exclusão no mercado de trabalho como os principais obstáculos à recuperação.
Vila Velha: O isolamento social, o desemprego e os vínculos familiares fragilizados dificultam a continuidade do tratamento e a reinserção social dos pacientes.
Fundão: Muitos usuários chegam aos serviços de saúde mental somente após anos convivendo em silêncio com o sofrimento psíquico, devido ao medo do julgamento.
Para Franciely da Costa Guarnier, chefe do Núcleo Especial de Atenção Especializada da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), combater esse estigma é prioridade máxima nas políticas públicas:
“Existe um estigma em relação às doenças mentais. Nosco trabalho é fortalecer a rede e ampliar o debate junto aos municípios e outras instituições para desmistificar essas doenças”, avalia a gestora.
De acordo com a Sesa, o Estado atua em campanhas educativas, reuniões intersetoriais e mantém diálogo permanente com órgãos como o Ministério Público. Contudo, a mudança cultural é lenta. Afinal, como o cenário demonstra, a doença pode ser tratada; o preconceito, não.
Atendimento psicossocial: Cidades do ES registram explosão na procura por ajuda
Se durante décadas procurar um psiquiatra ou psicólogo era motivo de vergonha, os números recentes mostram que a busca por atendimento psicossocial e tratamento especializado está crescendo de forma expressiva no Espírito Santo. Veja os dados levantados pela reportagem:
| Município | Atendimentos em 2024 | Atendimentos em 2025 | Modelo de Acesso / Fila de Espera |
| Vila Velha | 56.827 | 85.620 | Acolhimento contínuo, sem fila de espera |
| Serra | Não especificado | +36.000 | Distribuídos entre os 3 CAPS municipais |
| Guarapari | Crescimento | Crescimento | Acolhimento imediato ou na mesma semana |
| Fundão | Crescimento | Crescimento | Diário, sem necessidade de encaminhamento |
Especialistas interpretam esse movimento como um reflexo positivo da maior conscientização sobre a importância de cuidar da mente, embora as estruturas municipais ainda enfrentem gargalos severos de infraestrutura.
Desigualdade na saúde pública: Onde encontrar psicólogo e psiquiatra no ES?

A estrutura de atendimento varia drasticamente dependendo da cidade onde o paciente reside. Enquanto alguns municípios conseguem expandir seus serviços, outros enfrentam limitações históricas de infraestrutura:
Viana: Não possui uma sede do CAPS. Os atendimentos de saúde mental começam obrigatoriamente nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) e, quando necessário, os pacientes são encaminhados para a especialidade de psiquiatria e psicologia na policlínica municipal.
Cariacica: Adota um modelo híbrido. A Atenção Básica faz o primeiro acolhimento, enquanto os equipamentos especializados (como CAPS, residências terapêuticas e o hospital de referência em urgência psiquiátrica) estão sob a gestão do Governo do Estado.
Essa desigualdade territorial gera vazios assistenciais preocupantes, especialmente em partes da Região Norte e em bolsões de alta demanda reprimida na Região Metropolitana da Grande Vitória, um desafio reconhecido pela própria Sesa.
Espírito Santo tem déficit de 61 unidades do CAPS, reconhece Sesa

Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) foram criados para substituir o antigo modelo de hospitais psiquiátricos, oferecendo um “cuidado em liberdade”. São unidades abertas, inseridas na comunidade, compostas por equipes multidisciplinares com psiquiatras, psicólogos, enfermeiros, assistentes sociais e terapeutas ocupacionais. O foco vai além dos remédios: inclui oficinas terapêuticas, escuta, fortalecimento de vínculos e reinserção social.
Atualmente, o Espírito Santo possui 45 CAPS em funcionamento (42 municipais e 3 estaduais), divididos nas seguintes modalidades:
22 unidades CAPS I
9 unidades CAPS II
1 unidade CAPS III (funcionamento 24 horas com acolhimento noturno)
8 unidades CAPS AD (especializadas em álcool e outras drogas)
5 unidades CAPS infantojuvenis
Déficit na Rede: Apesar da expansão, a Sesa reconhece oficialmente um déficit estimado de 61 CAPS no Estado, concentrado principalmente na Região Metropolitana e em cidades do Norte capixaba.
Para complementar o atendimento de crise, a estrutura estadual conta com 85 leitos em dois hospitais psiquiátricos, 55 leitos psiquiátricos em hospitais gerais, 25 leitos infantojuvenis de funcionamento 24 horas no Instituto de Atendimento Socioeducativo (IMABA), além de cerca de 200 vagas contratadas conforme a demanda.
Franciely Guarnier sinaliza que há movimentos para descentralizar o acesso:
“O Ministério da Saúde estuda novos critérios que poderão permitir a implantação de CAPS em municípios menores, ampliando o acesso ao atendimento especializado”, explica a chefe do Núcleo da Sesa.
Como conseguir atendimento de saúde mental gratuito no ES?
Para quem precisa de ajuda ou tem um familiar enfrentando sofrimento psíquico, a rede pública do Espírito Santo orienta o seguinte fluxo de atendimento:
Unidade Básica de Saúde (UBS): É a principal porta de entrada. O paciente deve procurar o postinho de saúde mais próximo de sua casa para uma avaliação inicial com o clínico geral ou equipe de saúde da família.
Encaminhamento para o CAPS: Caso seja identificada a necessidade de um acompanhamento intensivo e multiprofissional, o paciente é direcionado ao CAPS da região. Em cidades como Fundão e Vila Velha, o acesso também ocorre por procura espontânea diária.
Casos de Urgência e Emergência: Em situações de surto, crises graves ou risco iminente, o atendimento deve ser buscado imediatamente em Unidades de Pronto Atendimento (UPAs 24h) ou nos hospitais de referência em psiquiatria do Estado.
Mais do que expandir prédios e leitos, gestores, pacientes e especialistas são unânimes: desconstruir o preconceito histórico da sociedade capixaba é o passo mais urgente para que milhares de pessoas tenham o direito de tratar a mente, recuperar seus vínculos e reconstruir suas vidas com dignidade.










