Canetas emagrecedoras podem proteger coração, rins e fígado

Desenvolvidos inicialmente para o tratamento do diabetes tipo 2, os medicamentos agonistas do GLP-1 — conhecidos popularmente como canetas emagrecedoras — vêm apresentando benefícios que vão além do controle da glicemia e da perda de peso. Pesquisas recentes indicam que substâncias como semaglutida e tirzepatida, presentes em medicamentos como Ozempic, Wegovy, Mounjaro e Zepbound, podem reduzir o risco de doenças cardiovasculares e oferecer proteção para rins e fígado, embora alguns desses efeitos ainda estejam em investigação.

A endocrinologista Gisele Lorenzoni destaca que as evidências mais consistentes, até o momento, estão relacionadas à proteção cardiovascular.

“A proteção cardiovascular é uma das áreas com evidências mais robustas atualmente. Isso é extremamente relevante porque as doenças cardiovasculares continuam sendo uma das principais causas de morte no mundo”, afirma.

Estudos apontam redução de infarto, AVC e morte cardiovascular

Entre os resultados mais relevantes está um estudo divulgado pelo American College of Cardiology, que avaliou 17.604 pacientes, distribuídos em 41 países, todos com 45 anos ou mais, sobrepeso ou obesidade e doença cardiovascular já estabelecida.

Segundo a pesquisa, pacientes que receberam semaglutida na dose de 2,4 mg, associada ao tratamento convencional, apresentaram redução de 20% na ocorrência de eventos cardiovasculares adversos maiores, como infarto, acidente vascular cerebral (AVC) e morte por causas cardiovasculares.

Os resultados reforçam o potencial desses medicamentos como parte da estratégia de prevenção da progressão das doenças cardiovasculares em pacientes selecionados.

Benefícios vão além da perda de peso

Os agonistas do GLP-1 atuam por meio de hormônios intestinais responsáveis por regular a glicose, promover sensação de saciedade e influenciar o metabolismo energético. Entretanto, pesquisadores vêm identificando efeitos que extrapolam essas funções.

Canetas emagrecedoras podem proteger coração, rins e fígadoSegundo Gisele Lorenzoni, trata-se de um exemplo de reposicionamento de medicamentos, situação em que um tratamento desenvolvido para uma finalidade passa a demonstrar eficácia em outras doenças.

“Na medicina, isso não é incomum. Muitas vezes, ao acompanhar pacientes por longos períodos e aprofundar as pesquisas, percebemos que determinados medicamentos atuam em mecanismos biológicos que impactam diferentes órgãos e doenças. É exatamente o que estamos observando com os agonistas do GLP-1”, explica.

Pesquisas investigam proteção dos rins e do fígado

Outra frente que tem recebido atenção da comunidade científica envolve os possíveis efeitos sobre os rins e o fígado.

Estudos sugerem que os agonistas do GLP-1 podem retardar a progressão de doenças renais e contribuir para a melhora da esteatose hepática, condição conhecida popularmente como gordura no fígado.

Embora as pesquisas avancem, especialistas ressaltam que os resultados ainda continuam sendo ampliados por novos estudos clínicos.

Potencial no controle de compulsões ainda está em investigação

Outra linha de pesquisa avalia os efeitos dessas medicações sobre mecanismos ligados à recompensa cerebral e aos comportamentos compulsivos.

Resultados preliminares indicam que alguns pacientes relatam diminuição não apenas da fome, mas também de impulsos relacionados a outras compulsões e dependências.

“Observamos que alguns pacientes relatam redução não apenas da fome, mas também de impulsos relacionados a outros comportamentos compulsivos. Ainda precisamos de mais evidências para definir exatamente o papel desses medicamentos nessas condições, mas os resultados são promissores”, afirma a endocrinologista.

Apesar do interesse científico crescente, esse uso ainda depende de novas pesquisas para confirmação de eficácia e segurança.

Especialista alerta para riscos da automedicação

O avanço das pesquisas não significa que esses medicamentos devam ser utilizados sem indicação médica.

A endocrinologista reforça que os agonistas do GLP-1 possuem indicações específicas, contraindicações e podem provocar efeitos adversos, tornando indispensável a avaliação individual de cada paciente.

“É importante lembrar que estamos falando de medicamentos que possuem indicações específicas, contraindicações e possíveis efeitos adversos. Nem todo paciente é candidato ao tratamento, e a prescrição deve ser feita após avaliação médica individualizada”, alerta Gisele Lorenzoni.

Benefícios dos agonistas do GLP-1 já demonstrados ou em estudo

Entre os principais efeitos observados até o momento estão:

  • Controle do diabetes tipo 2;
  • Tratamento da obesidade e perda de peso;
  • Redução do risco de infarto, AVC e morte cardiovascular;
  • Possível proteção dos rins;
  • Potencial benefício para o fígado em casos de esteatose hepática;
  • Redução da inflamação sistêmica;
  • Auxílio no tratamento da apneia do sono;
  • Potencial efeito sobre comportamentos compulsivos e dependências, ainda em investigação;
  • Melhora da qualidade de vida de pacientes com doenças associadas à obesidade.

A maior parte das evidências mais consolidadas diz respeito ao controle do diabetes, ao tratamento da obesidade e à redução do risco cardiovascular. Já os demais benefícios seguem sendo investigados em estudos clínicos, com resultados considerados promissores pela comunidade científica, mas ainda dependentes de confirmação em novas pesquisas.

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