Anselmo Laghi Laranja
Anselmo Laghi Laranja
Anselmo Laghi Laranja é juiz de Direito, Secretário Geral do TJES, Mestre em História Social das Relações Políticas e Doutor em Direito Constitucional.
A opinião dos colunistas é de inteira responsabilidade de cada um deles e não reflete a posição de ES Hoje

O tempo de entrega

Em sua obra Sobre a Brevidade da Vida, Sêneca formula uma das reflexões mais provocativas da filosofia ocidental. Contrariando a percepção comum, ele sustenta que a vida não é curta. Curto é o uso que fazemos dela. Segundo o filósofo romano, dispomos de tempo suficiente para realizar grandes obras; o que frequentemente nos impede de alcançá-las não é a escassez do tempo, mas o desperdício dele.

Passados quase dois mil anos, a advertência permanece atual. E talvez seja especialmente útil para a compreensão dos desafios enfrentados pelas organizações contemporâneas, em particular pelas instituições públicas.

Durante muito tempo, a administração pública brasileira conviveu com um problema recorrente: a ausência de planejamento adequado. Decisões eram tomadas sem diagnóstico consistente, prioridades eram definidas sem critérios objetivos e projetos eram executados sem uma compreensão clara dos resultados pretendidos. Como reação a esse modelo, consolidou-se gradualmente uma cultura de governança, gestão estratégica, planejamento institucional, gestão de riscos e monitoramento de resultados.

Trata-se de uma evolução necessária e positiva. Não existe boa execução sem direção. Não existe direção segura sem planejamento. Planejar continua sendo uma das tarefas mais importantes de qualquer gestor responsável.

Entretanto, toda virtude pode transformar-se em obstáculo quando perde de vista sua finalidade.

Se antes o problema era a ausência de planejamento, hoje muitas organizações enfrentam um desafio diferente: transformar planejamento em realização. Não são raros os casos de instituições que produzem diagnósticos sofisticados, elaboram excelentes projetos, constroem modelos de governança tecnicamente consistentes e promovem inúmeras discussões estratégicas, mas encontram dificuldades para converter todo esse conhecimento em resultados concretos.

A sensação de avanço gerada pelo planejamento pode criar uma perigosa ilusão de progresso. Afinal, reuniões, relatórios, apresentações e cronogramas são instrumentos importantes, mas continuam sendo apenas instrumentos. O verdadeiro propósito da gestão pública não é produzir planos. É produzir resultados.

Essa compreensão está presente em modernas metodologias de gestão, especialmente na filosofia Lean. Sob a perspectiva do Lean Office, desperdício não é apenas aquilo que gera gasto financeiro desnecessário. Desperdício é toda atividade que consome tempo, energia e capacidade institucional sem produzir valor efetivo para quem recebe o serviço.

Processos excessivamente burocráticos, retrabalhos, fluxos complexos, sucessivas rediscussões sobre temas já enfrentados e atividades que não geram resultados concretos representam formas silenciosas de desperdício organizacional.

E, entre todos os recursos administrados por uma instituição, nenhum é mais valioso do que o tempo.

Recursos financeiros podem ser recompostos. Equipamentos podem ser substituídos. Estruturas podem ser ampliadas. Equipes podem ser fortalecidas. O tempo, entretanto, possui uma característica singular: uma vez consumido, desaparece para sempre.

Talvez por isso a reflexão de Sêneca encontre tão profunda sintonia com a boa administração. O problema raramente é a falta de tempo. O problema é aquilo que deixamos de realizar enquanto o tempo passa.

Essa percepção assume especial relevância no âmbito do Poder Judiciário. Os mandatos das administrações dos tribunais brasileiros são relativamente curtos. Em regra, dois anos. Embora pareça um período razoável, trata-se de um horizonte temporal desafiador para instituições complexas, que lidam simultaneamente com a necessidade de garantir a continuidade dos serviços, responder às demandas do presente e construir soluções estruturantes para o futuro.

A atual gestão do Tribunal de Justiça do Estado do Espírito Santo compreendeu desde o início essa realidade.

Sob a liderança da Presidente, Desembargadora Janete Vargas Simões, os primeiros meses da administração foram marcados por uma intensa agenda de escuta institucional, diálogo, construção de consensos e definição de prioridades estratégicas. Magistrados, servidores, gestores e unidades judiciárias foram chamados a participar da construção de um diagnóstico mais preciso sobre os desafios e oportunidades da instituição.

Essa etapa era indispensável.

Não existe transformação consistente sem compreensão adequada da realidade. Não existe mudança duradoura construída apenas sobre a urgência do momento. As organizações que não planejam acabam desperdiçando recursos, esforços e oportunidades.

Mas a gestão também compreendeu que planejamento não significa espera.

Ao mesmo tempo em que estruturava projetos estratégicos de longo prazo, promoveu entregas concretas e imediatas voltadas ao fortalecimento da atividade jurisdicional e administrativa. Avançou na recomposição de equipes, realizou nomeações, fortaleceu mecanismos de governança e controle, ampliou iniciativas de apoio às unidades judiciárias, promoveu melhorias em infraestrutura e criou as condições necessárias para a implementação de transformações ainda mais profundas.

Talvez o maior desafio da administração contemporânea seja exatamente esse: administrar simultaneamente o presente e o futuro. Resolver os problemas urgentes sem abandonar os projetos importantes. Produzir resultados imediatos sem comprometer as transformações estruturantes.

É nesse contexto que se inserem iniciativas que hoje se encontram em desenvolvimento e que possuem potencial para redefinir a capacidade operacional do Judiciário capixaba nos próximos anos. Projetos de modernização tecnológica, integração de sistemas, fortalecimento da governança, ampliação da infraestrutura digital, melhoria dos ambientes de trabalho, aperfeiçoamento dos mecanismos de suporte às unidades judiciárias e racionalização dos processos administrativos não representam apenas investimentos em tecnologia ou estrutura. Representam investimentos em tempo.

Tempo dos magistrados.

Tempo dos servidores.

Tempo dos advogados.

Tempo dos cidadãos.

Em última análise, toda inovação relevante no setor público possui um objetivo comum: permitir que a instituição utilize melhor o seu recurso mais escasso e mais valioso.

A maturidade de uma gestão não pode ser medida apenas pela qualidade de seus diagnósticos ou pela sofisticação de seus projetos. Ela se revela na capacidade de transformar planejamento em execução, estratégia em realização e intenção em valor público.

A sociedade não experimenta os benefícios dos relatórios. Ela experimenta os benefícios das soluções.

Não percebe diretamente os planejamentos. Percebe os resultados.

Não é impactada pelas intenções. É impactada pelas entregas.

Por essa razão, talvez o momento mais importante de qualquer processo de transformação institucional seja aquele em que a organização atravessa a fronteira entre o planejamento e a execução. O momento em que os projetos deixam de existir apenas nos documentos e passam a produzir efeitos concretos na realidade.

Planejar continuará sendo indispensável. Governar exige prudência, reflexão, método e responsabilidade. Mas chega um momento em que a melhor estratégia é agir.

Sêneca compreendeu isso há quase vinte séculos ao advertir que a vida não se torna breve por falta de tempo, mas pelo modo como o utilizamos. O mesmo vale para as instituições.

Organizações que sabem utilizar bem o tempo produzem mais resultados, geram mais valor e deixam legados mais duradouros.

Porque, ao final, tanto na vida quanto na administração pública, o verdadeiro risco não é a falta de tempo.

É o desperdício dele.

Anselmo Laghi Laranja
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Anselmo Laghi Laranja é juiz de Direito, Secretário Geral do TJES, Mestre em História Social das Relações Políticas e Doutor em Direito Constitucional.

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