João Gualberto Vasconcellos
João Gualberto Vasconcellos
João Gualberto Vasconcellos é mestre e professor emérito da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Doutor em Sociologia pela Escola de Altos Estudos em Ciência Política de Paris, na França, Pós-doutorado em Gestão e Cultura. Foi secretário de Cultura no Espírito Santo entre 2015 e 2018.
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R E I S A L O M Ã O: Capítulo II – O PEDIDO DE SABEDORIA A DEUS

Sempre a sabedoria vale mais que ouro ou qualquer outra riqueza terrena

Salomão assumia o trono de Israel em circunstâncias que exigiam muito mais que força militar ou linhagem real. O reino unificado por Davi, seu pai, enfrentava tensões internas e externas. Havia facções políticas que ainda questionavam sua legitimidade, inimigos nas fronteiras que testavam a nova administração e um povo que esperava por justiça e prosperidade. Em meio a esse cenário de incertezas, o jovem rei tomou uma decisão que definiria seu destino: dirigiu-se a Gibeom, o principal santuário da época, e ofereceu ali mil sacrifícios. Não se tratava de mero ritualismo religioso. Era um ato de busca sincera por orientação, uma declaração implícita de que não confiava apenas em sua própria capacidade.

Naquela noite, enquanto dormia em Gibeom, Deus apareceu a Salomão em sonho e fez uma oferta que poucos governantes jamais receberiam:

E em Gibeom apareceu o Senhor a Salomão de noite em sonhos; e disse-lhe Deus: Pede o que queres que eu te dê. (1 Reis 3:5).

A pergunta não era retórica. Deus colocava diante do jovem rei um leque ilimitado de possibilidades. Riqueza, fama, vitórias militares, longevidade, vingança contra inimigos, poder absoluto. Muitos monarcas, na mesma posição, teriam escolhido o que parecesse mais imediato e sedutor. Mas Salomão respondeu de forma que ecoa através dos milênios como um modelo de maturidade e discernimento (1 Reis 3:9).

A teu servo, pois, dá um coração entendido para julgar a teu povo, para que prudentemente discirna entre o bem e o mal; porque quem poderia julgar a este teu tão grande povo?

Após ser ungido rei ainda antes da morte de seu pai, Davi, Salomão precisava consolidar seu governo. Em vez de recorrer imediatamente a alianças políticas ou demonstrações de força, ele buscou a presença divina. Gibeom não era um local qualquer, era onde o tabernáculo da aliança estava estabelecido, o centro da adoração a Deus em Israel. Ao oferecer mil sacrifícios, Salomão demonstrava que sua confiança primordial não estava em exércitos ou tesouros, mas em algo superior.

Esse gesto revela uma característica essencial do líder sábio: a humildade de reconhecer que o poder humano tem limites. Salomão sabia que, apesar de ser filho de Davi, apesar de ter sido ungido por profetas e aclamado pelo povo, governar um reino complexo exigia mais do que ele possuía naturalmente. Era jovem, inexperiente em administração, desconhecia as sutilezas da diplomacia e da jurisdição. Em vez de esconder essas fraquezas, ele as apresentou a Deus em forma de busca.

O sonho de Gibeom é um dos momentos mais fascinantes das Escrituras e da Bíblia. Deus não fez uma oferta condicionada ou limitada, simplesmente disse: “Pede o que queres que eu te dê”. A amplitude dessa pergunta é impressionante. Ela colocava Salomão diante de um dilema existencial: o que realmente importa para alguém que tem o poder de escolher qualquer coisa? A resposta revela não apenas as prioridades do rei, mas a profundidade de seu caráter.

Salomão poderia ter pedido a destruição de seus inimigos, garantindo segurança militar por décadas. Poderia ter pedido riquezas que tornassem Israel a nação mais próspera da região. Poderia ter pedido longa vida, fama mundial, ou mesmo a capacidade de realizar milagres. Mas ele não fez nenhum desses pedidos. Em vez disso, pediu algo que, à primeira vista, pode parecer abstrato: um coração compreensivo para julgar o povo e discernir entre o bem e o mal.

Salomão não via o trono como um posto de privilégio, mas como uma posição de serviço. Governar significava, antes de tudo, administrar justiça. Era preciso ouvir demandas, avaliar provas, equilibrar interesses conflitantes, proteger o fraco do forte, e garantir que a lei fosse aplicada de forma igualitária e justa. Para tudo isso, a inteligência técnica era insuficiente. Era necessário um tipo de sabedoria que fosse além do conhecimento intelectual.

Ele também pediu discernimento entre o bem e o mal. Isso implica uma sensibilidade moral que vai além do código escrito. Leis podem ser manipuladas, brechas podem ser exploradas, a letra fria pode servir à injustiça quando falta espírito de equidade.

Salomão queria a capacidade de enxergar a essência dos conflitos, de distinguir onde estava a verdadeira justiça, mesmo quando os fatos pareciam ambíguos ou as partes tentavam enganar.

Essa escolha contrasta fortemente com a mentalidade dominante entre governantes da época. Reis vizinhos acumulavam ouro, construíam exércitos, erguiam monumentos a si mesmos. Salomão, por sua vez, priorizou o que não se vê: a capacidade de pensar, de sentir, de decidir com retidão. Ele compreendeu que o verdadeiro poder não está em tesouros que a traça corrói, mas em algo que permanece e se multiplica.

A sabedoria de Salomão, desde o início, estava enraizada na humildade. Ele não fingiu saber o que não sabia. Não tentou impressionar com discursos vazios ou demonstrações de força. Sua primeira atitude como rei foi reconhecer sua pequenez diante da grandeza da tarefa que lhe fora confiada. Essa humildade não era fraqueza. Era a base sobre a qual a verdadeira sabedoria poderia ser construída.

Salomão demonstrou, ao fazer seu pedido, que a inteligência sem sabedoria é perigosa, e que a sabedoria sem humildade é contraditória. Não basta acumular informações ou dominar técnicas. É preciso usá-las com discernimento, com senso de justiça, com compaixão.

Ouvir é uma arte que exige disciplina. Salomão entendia que cada parte em um conflito tem sua própria narrativa, suas próprias razões, suas próprias dores. Antes de julgar, é preciso compreender o contexto, as motivações, as circunstâncias que levaram à disputa. Apenas então se pode aplicar a lei de forma que faça sentido para aquela situação específica.

Analisar, por sua vez, requer a capacidade de separar fatos de emoções, de identificar interesses ocultos, de avaliar provas com objetividade. Salomão sabia que as aparências enganam e que os mais eloquentes nem sempre têm razão. Que os mais humildes nem sempre estão certos. Por isso, ele pediu discernimento para ir além da superfície e enxergar a verdade.

A resposta de Deus ao pedido de Salomão foi surpreendente. Deus não apenas concedeu a sabedoria solicitada, mas acrescentou o que Salomão não pediu: riquezas, honra e promessa de longevidade condicionada à obediência. Essa generosidade divina ensina que aqueles que priorizam o essencial recebem, como acréscimo, o que outros buscam desesperadamente.

Salomão tornou-se conhecido como o homem mais sábio de seu tempo. Sua fama espalhou-se por reinos distantes. Reis e rainhas vinham de longe para ouvir suas palavras e testar sua inteligência. Mas, além da sabedoria, ele também acumulou imensas riquezas. O ouro de Ofir, a prata como pedras comuns, o comércio com nações distantes transformou Israel em uma potência econômica. A honra que recebeu foi proporcional à sua reputação de justiça e discernimento.

A fama de Salomão ultrapassou as fronteiras de Israel. A rainha de Sabá, governante de um reino distante e igualmente próspero, ouviu falar de sua sabedoria e decidiu visitá-lo pessoalmente. Não veio com intenções bélicas, mas com perguntas difíceis e presentes valiosos. Queria testar se a reputação era verdadeira ou mero exagero.

Salomão a recebeu e respondeu a todas as suas questões com profundidade e clareza. A rainha, impressionada, declarou que a realidade superava a fama. Presenteou o rei com ouro, especiarias e pedras preciosas em quantidades nunca antes vistas. Esse episódio demonstra que a verdadeira sabedoria atrai admiração e respeito, além de benefícios materiais.

Em um mundo que frequentemente mede o sucesso pelo acúmulo material, o pedido do jovem rei soa como um contraponto necessário. Ele escolheu o que não se vê, o que não se toca, mas o que dá sentido a tudo o mais: a sabedoria.

O discernimento vale mais que o ouro, pedra preciosa ou quaisquer riquezas terrenas. A capacidade de ouvir, compreender e decidir com justiça é um bem que não se deprecia e que ninguém pode roubar. Salomão poderia ter pedido as riquezas do mundo, mas pediu sabedoria.

Texto escrito por João Batista Dallapiccola Sampaio, Soberano Grande Inspetor Geral – Grau 33º Maçon e Assessor Jurídico do Grão Mestre e, por Renato Mota Vello, Advogado Pós-Graduado em Direito de Família e Venerável Presidente do Tribunal Estadual de Justiça Maçonico do GOBES.

João Gualberto Vasconcellos
João Gualberto Vasconcellos
João Gualberto Vasconcellos é mestre e professor emérito da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Doutor em Sociologia pela Escola de Altos Estudos em Ciência Política de Paris, na França, Pós-doutorado em Gestão e Cultura. Foi secretário de Cultura no Espírito Santo entre 2015 e 2018.

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