O avanço das apostas esportivas e dos jogos de azar tem refletido diretamente na saúde pública brasileira. Entre janeiro de 2018 e maio de 2025, o número de atendimentos realizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) relacionados ao jogo patológico e à compulsão por apostas aumentou 104%, levando o Ministério da Saúde a ampliar as ações de prevenção e tratamento.
Diante desse cenário, a pasta anunciou que ainda este ano reforçará o atendimento remoto para pessoas com problemas relacionados às apostas, ampliando os serviços de teleatendimento por telefone e videochamada.
A iniciativa será executada por meio da Agência Brasileira de Apoio à Gestão do SUS (AgSUS), responsável por contratar empresas especializadas para ampliar o acesso gratuito ao acompanhamento psicológico e em saúde mental.
Mais de 10 mil atendimentos já foram realizados
Dados do Ministério da Saúde mostram que o SUS registrou 10.553 atendimentos relacionados ao transtorno do jogo entre janeiro de 2018 e maio de 2025.
Desse total, 6.237 ocorreram na Atenção Primária à Saúde e 4.316 em atendimento ambulatorial.
Os casos concentram-se principalmente entre homens de 20 a 49 anos, embora especialistas tenham observado um crescimento preocupante também entre pessoas mais jovens.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o comportamento compulsivo relacionado às apostas pode provocar ansiedade, depressão, outros transtornos compulsivos e aumentar o risco de autolesão e suicídio.
Governo investirá R$ 70 milhões
Como resposta ao aumento da demanda, o Ministério da Saúde prevê investir aproximadamente R$ 70 milhões até o fim deste ano na ampliação da assistência oferecida pela Rede de Atenção Psicossocial (Raps).
Além disso, outros R$ 6 milhões serão destinados à realização da primeira pesquisa nacional sobre os impactos das apostas na saúde da população brasileira.
O estudo pretende identificar os grupos mais vulneráveis e fornecer dados para orientar futuras políticas públicas de prevenção e tratamento.
Parte dos recursos utilizados virá da chamada destinação social das empresas de apostas.
Em 2025, o Ministério da Saúde recebeu R$ 45,7 milhões, valor correspondente a 1% da arrecadação tributária do setor, conforme estabelece a Lei nº 14.790/2023.
Segundo a pasta, esse montante complementa o orçamento destinado à Rede de Atenção Psicossocial, que consumiu aproximadamente R$ 2,5 bilhões no ano passado.
Atendimento já está disponível
Desde março deste ano, pessoas que enfrentam dificuldades relacionadas ao jogo compulsivo já podem receber atendimento especializado pelo SUS de forma remota.
O serviço, desenvolvido em parceria com o Hospital Sírio-Libanês, já contabiliza 6.912 usuários cadastrados.
Para utilizar o atendimento, o interessado deve acessar o aplicativo Meu SUS Digital, onde também estão disponíveis informações sobre prevenção, sinais de alerta e um autoteste elaborado por especialistas.
Caso o questionário indique risco moderado ou elevado, o usuário é encaminhado automaticamente ao teleatendimento.
Nos casos considerados de menor risco, a plataforma orienta a procura por atendimento em Centros de Atenção Psicossocial (Caps) ou em Unidades Básicas de Saúde (UBS).
A Ouvidoria do SUS também presta orientações pelo telefone 136, além de canais como WhatsApp, formulário eletrônico, chatbot e teleatendimento.
Outras medidas para conter o problema
Nos últimos meses, o governo federal também ampliou as ações voltadas ao enfrentamento dos impactos das apostas.
Entre elas está a Plataforma Centralizada de Autoexclusão, lançada em dezembro de 2025, que permite ao próprio usuário bloquear o acesso a todos os sites de apostas autorizados no país.
Até o fim de maio, mais de 500 mil pessoas já haviam aderido ao sistema.
Em janeiro deste ano, o Ministério da Saúde também lançou um guia destinado aos profissionais do SUS com orientações para acolhimento, acompanhamento e tratamento de pessoas afetadas pela dependência em apostas.
Na sexta-feira (19), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou ainda o Decreto nº 13.033, que reforça o combate ao mercado ilegal de apostas e autoriza a utilização de recursos confiscados de bets clandestinas em ações de enfrentamento ao crime organizado.









