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12 de fevereiro de 2026
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026
Fernando Carreiro
Fernando Carreiro
Jornalista e consultor especializado em reputação, crises de imagem, comportamento humano e estratégia política e de marcas, é autor de ‘Campanhas, Casos & Cases
A opinião dos colunistas é de inteira responsabilidade de cada um deles e não reflete a posição de ES Hoje

Quando a avenida do samba vira tribunal eleitoral

Carnaval não é palanque. Mas também não é território inocente. É o único ambiente em que a política, ao tentar se misturar à diversão, perde o direito à explicação e passa a ser avaliada por critérios muito mais cruéis, como a sensação de intrusão. O eleitor não vai à avenida para julgar governos. Vai para se divertir. E é justamente por isso que ele reage quando a política vira parte do entretenimento.

Esse é o ponto que muitos estrategistas ignoram.

Quando a Acadêmicos de Niterói decide levar Lula como enredo em pleno mandato e em ano eleitoral, o gesto não pode ser lido como homenagem cultural despretensiosa. Trata-se de uma aposta clara de comunicação: deslocar a imagem presidencial do terreno áspero da polarização política para o território afetivo da cultura popular de massa. Um movimento clássico — e arriscado — de reancoragem simbólica.

O erro conceitual está em imaginar que o carnaval “humaniza” automaticamente. O carnaval reduz à caricatura. Ele exagera, distorce, amplifica e devolve ao público uma versão menos controlável do personagem. Caricatura pode gerar empatia, mas também cristaliza rejeições que estavam difusas. No carnaval, não há direito de resposta emocional.

O eleitor-folião não pergunta se o governo foi bom ou ruim. Ele reage a outra coisa, muito mais instintiva: isso parece festa ou parece campanha disfarçada?

Quando o enredo se aproxima demais da liturgia eleitoral, a diversão é interrompida. E o brasileiro aceita quase tudo, menos que tentem ensinar alguma coisa enquanto ele quer apenas se divertir.

O carnaval, como qualquer caricatura da sociedade, verifica se a imagem pública aguenta ser desmontada, cantada por terceiros e consumida sem controle de enquadramento. Ao virar enredo, Lula não disputa narrativa com adversários. Disputa com o riso, com o meme e com a ironia lateral — forças muito mais duradouras do que qualquer debate político.

No Espírito Santo, o carnaval revelou outra face do mesmo fenômeno. Mais crua e menos estetizada. No Sambão do Povo, o abraço entre Lorenzo Pazolini e Arnaldinho Borgo não foi apenas imagem capturada ao acaso. Foi planejada. Houve discurso — com uma deselegância desnecessária, registre-se —, risos disfarçados e constrangimento visível.

Ali, o carnaval deixou de ser pano de fundo e virou arena. O gesto ganhou peso porque verbalizou o que já estava latente nos corredores da política capixaba. Arnaldinho havia apostado em ser o nome natural da sucessão do governador Renato Casagrande. Foi preterido quando Casagrande escolheu Ricardo. O carnaval apenas tornou público, para uma plateia de milhares de foliões, um reposicionamento que, nos gabinetes, ainda era tratado com cautela e eufemismo.

A diferença entre os dois episódios é instrutiva. No Rio, a política tenta se diluir na festa para suavizar sua imagem. No Espírito Santo, ela usa a festa para antecipar conflito. Um movimento busca adesão simbólica; o outro assume o risco do rompimento visível.

Isso não é novidade na história brasileira. Getúlio entendeu cedo o valor simbólico das festas populares. Brizola sabia que a rua falava antes do parlamento. Lula, em outros momentos, compreendeu como poucos o poder da presença física. O que muda agora é o ambiente: um eleitor saturado de discurso, treinado para ler imagem como caráter e gesto como intenção.

Por isso o carnaval importa. Não porque decide eleição, porque não decide; mas porque fixa sensação. E sensação, em marketing político, antecede qualquer racionalização posterior. Quem erra o tom numa festa pode até corrigir o discurso depois. Mas dificilmente apaga a impressão de que, por alguns minutos, tentou transformar diversão em propaganda — ou usou a festa para dizer o que não teve coragem de dizer no tempo institucional.

No fim, o desfile acaba, as luzes se apagam e a quarta-feira de cinzas sempre chega. A política, por sua vez, sai da avenida carregando algo invisível e duradouro: a memória afetiva do eleitor — para o bem ou para o mal. E essa memória, goste-se ou não, costuma pesar muito quando a fantasia vira decisão.

Bom carnaval!

Fernando Carreiro
Fernando Carreiro
Jornalista e consultor especializado em reputação, crises de imagem, comportamento humano e estratégia política e de marcas, é autor de ‘Campanhas, Casos & Cases

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