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1 de fevereiro de 2026
domingo, 1 de fevereiro de 2026
João Gualberto Vasconcellos
João Gualberto Vasconcellos
João Gualberto Vasconcellos é mestre e professor emérito da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Doutor em Sociologia pela Escola de Altos Estudos em Ciência Política de Paris, na França, Pós-doutorado em Gestão e Cultura. Foi secretário de Cultura no Espírito Santo entre 2015 e 2018.
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A fazenda Morro das Palmas

O escritor capixaba Geremias Pignaton é autor de um livro muito interessante sobre a história do desenvolvimento de sua região de origem, lá onde estão hoje municípios como Ibiraçu, Fundão, João Neiva, Aracruz. Ela narra a história a partir da existência da Fazenda Morro das Palmas. Para ele, como registra no texto, a fazenda foi sede da primeira tentativa de se iniciar uma colônia de imigrantes italianos no Brasil.  Lá, em 1874, Pietro Tabacchi, seu proprietário, tentou instalar a colônia Nova Trento nos confins de suas imensas terras, nas proximidades de onde hoje é a cidade de Fundão, empreitada que foi destinada ao fracasso.

Com fim da escravidão, era preciso renovar a força de trabalho pensavam os fazendeiros. Os italianos vieram para serem proprietários de pequenas glebas de terra ou trabalhar em fazendas. Também houve um processo de dividir as fazendas e vender porções de terra para serem pagas a longo prazo para imigrantes. Isso transformava os antigos proprietários de grandes fazendas em compradores do café, produzido por uma multidão de pequenos produtores. Passavam assim a comandar uma extensa rede de interesses comerciais na cadeia produtiva do café, que era o carro chefe da economia do Espírito Santo nessa época.

O mesmo acabou acontecendo, por exemplo, na Fazenda do Centro, no hoje município de Castelo, mas também em grandes porções de terra em Iconha. Cada um desses municípios gerou grandes coronéis como o Coronel Duarte, em Iconha. Aliás, esse é um dos elementos mais centrais no coronelismo capixaba: a existência de pequenos produtores imigrantes organizados em redes comerciais por fazendeiros já instalados e próximos ao poder.

É bom lembrar que não apenas a propriedade da terra determina a produção social de um coronel, o que conta de verdade é o controle de uma extensa rede de favores. O controle da compra da produção de pequenos proprietários permitiu a existência dessas extensas redes de favorecimentos e ajuda no dia a dia. O homem pobre não tinha acesso a quase nada nesse período: saúde, educação, finciamentos.

No caso específico da Fazenda Morro das Palmas, o empreendimento de Pietro Tabacchi não prosperou, e isso tem a ver com as condições próprias de negócio que ele criou. Segundo as informações organizadas por Geremias Pignaton, as promessas feitas aos italianos não foram cumpridas, as condições de sobrevivência eram precárias e os recém-chegados revoltaram-se.

Nesse contexto acabaram partindo em busca de novos horizontes, indo em sua maioria para um outro empreendimento da colonização italiana em nossas terras, a colônia Santa Leopoldina. Essa experiência pioneira fracassada acabou por produzir, nesse deslocamento de pessoas insatisfeita, o surgimento da cidade de Santa Tereza, um fato importante e que merece um texto só para tratar desse feito.

No entanto, não foi só esse grande empreendimento que foi desenvolvido na Fazenda Morro das Palmas. Anos mais tarde, já na década de 1890, o seu novo proprietário o influente militar, político e homem de negócios, Aristides Guaraná, instalou nela uma grande usina de produção de açúcar, uma das maiores do Brasil na época: O Engenho Guaraná. Em uma história pouco conhecida da maioria dos capixabas, tivemos o protagonismo de um militar que atuou na Guerra do Paraguai, onde, inclusive, perdeu um dos braços. Tinha por isso, muito prestígio junto a família imperial, especialmente com o Conde d’Eu. Prestigio que se estendeu ao início da república, em função de sua relação de amizade com o presidente Deodoro, seu amigo desde os campos da Guerra do Paraguai.

O Dr. Guaraná, ele era também engenheiro, é descrito na obra como um escravocrata radical e perverso, sendo responsável por vários atos de selvageria contra os que trabalhavam de forma forçada em suas terras, e chegou a ser deputado provincial com a bandeira da continuidade da escravidão. Em função de relações e influência conseguiu levantar um grande empréstimo para implantar a dois quilômetros de distância da Fazenda Morro das Palmas um enorme engenho de açúcar, que batizou de Engenho Central Guaraná, que começou a ser implantado em 1890. A inauguração oficial se deu em 1900. Esse empreendimento industrial que seria um dos mais importantes na época no Brasil, fracassou totalmente.

De tudo isso restaram ruínas e o nome de um distrito do município de Aracruz, situado às margens da BR101. O resgate dessa história exigiu pesquisa, esforço e dedicação de Geremias Pignaton, que são suficientes para saudarmos com alegria a escrita histórica desse importante trabalho. Recomendo sua leitura e o conhecimento de fatos tão relevantes da nossa trajetória histórica.

 

João Gualberto Vasconcellos
João Gualberto Vasconcellos
João Gualberto Vasconcellos é mestre e professor emérito da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Doutor em Sociologia pela Escola de Altos Estudos em Ciência Política de Paris, na França, Pós-doutorado em Gestão e Cultura. Foi secretário de Cultura no Espírito Santo entre 2015 e 2018.

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