A realização de ações culturais no sistema prisional brasileiro tem sido historicamente marcada por iniciativas pontuais, muitas vezes descontinuadas e dependentes de esforços individuais ou institucionais isolados. No Espírito Santo, entretanto, algumas experiências recentes têm buscado estabelecer práticas mais estruturadas, articulando políticas culturais, educação e direitos humanos. É nesse contexto que se insere o projeto “Palco Livre: teatro no presídio LGBTQIA+”, desenvolvido ao longo de 2025 no Presídio de Segurança Média 2 (PSME-2), em Viana, unidade reconhecida como referência no atendimento à população LGBTQIA+ privada de liberdade.
Selecionado no Edital nº 04/2024 – Valorização de Territórios e Diversidade Cultural, com recursos do Funcultura/PNAB, o projeto foi executado pelo Núcleo de Direitos Humanos e Saúde ( NuDHS) da Universidade Federal do Espírito Santo.. A proposta consistiu na oferta de uma oficina continuada de iniciação teatral dentro da unidade prisional, concebida como atividade educativa e cultural, voltada à experimentação artística e à reflexão sobre cidadania, convivência social e direitos humanos no contexto do cárcere.

O PSME-2 ocupa posição singular no sistema penitenciário capixaba por concentrar pessoas privadas de liberdade LGBTQIA+, o que impõe desafios específicos relacionados à segurança, à saúde, à dignidade humana e ao enfrentamento de violências simbólicas e institucionais. A oficina teatral foi pensada levando em consideração essas especificidades, buscando criar um espaço de escuta, expressão e construção coletiva, sem desconsiderar as limitações próprias do ambiente prisional.
As atividades do “Palco Livre” ocorreram entre agosto e dezembro de 2025, com encontros semanais às terças-feiras, no período da tarde. Quinze pessoas privadas de liberdade participaram da oficina, que teve como eixos metodológicos o trabalho corporal, a voz, o jogo teatral e a improvisação. As práticas foram organizadas de modo progressivo, respeitando o ritmo do grupo e as condições objetivas da unidade prisional.
A metodologia adotada evitou modelos rígidos de ensino teatral, privilegiando abordagens participativas e processuais. Os exercícios propostos buscavam estimular a percepção corporal, a comunicação verbal e não verbal, a cooperação e a confiança mútua. Ao mesmo tempo, as atividades funcionaram como dispositivos de elaboração simbólica de experiências individuais e coletivas marcadas por exclusões, rupturas de vínculos sociais e violações de direitos.
Ao longo do processo, as improvisações e jogos teatrais passaram a gerar materiais cênicos que, gradualmente, foram organizados em uma estrutura dramatúrgica. Esse percurso resultou no exercício cênico “Manga Rosa, Coração Civil”, apresentado ao final da oficina. A dramaturgia foi organizada a partir dos conteúdos produzidos pelo grupo, configurando uma criação coletiva, sem hierarquização rígida de autoria.
A encenação não seguiu uma narrativa linear tradicional, optando por uma sucessão de quadros e situações que dialogam com o cotidiano do cárcere, com memórias afetivas e com questões estruturais da sociedade brasileira. O título da obra mobiliza imagens simbólicas relacionadas à privação, ao desejo e à resistência, articulando essas referências a debates sobre racismo, desigualdade social, machismo e LGBTfobia.

A trilha sonora desempenhou papel relevante na construção do exercício cênico. Canções interpretadas por Ney Matogrosso e Elza Soares foram incorporadas como elementos dramatúrgicos, estabelecendo conexões entre a experiência cênica e discursos públicos sobre direitos humanos, violência estrutural e cidadania. Essas referências dialogam com marcos internacionais de proteção aos direitos humanos, como a Convenção Americana sobre Direitos Humanos.
A primeira apresentação de “Manga Rosa, Coração Civil” ocorreu em 9 de dezembro de 2025, véspera do Dia Internacional dos Direitos Humanos, dentro das dependências do próprio PSME-2. Em decorrência da repercussão interna, uma segunda apresentação foi realizada em 23 de dezembro do mesmo ano, também na unidade.
ANTONIO MARX
Antonio Lopes de Souza Neto, conhecido artisticamente como Antonio Marx (DRT 2297-ES), possui trajetória que articula artes cênicas, educação e atuação institucional no campo dos direitos humanos. É graduado em Física pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e especialista em Educação a Distância pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Paralelamente à formação acadêmica nas ciências exatas, construiu percurso artístico como ator, com formação pela Escola Técnica Municipal de Teatro, Dança e Música Fafi.
Servidor técnico-administrativo da Ufes há 32 anos, Antonio Marx atuou em diferentes frentes da universidade, incluindo laboratórios de pesquisa e ensino no Departamento de Física, coordenação de projetos educacionais no Cine Metrópolis e atividades vinculadas à Pró-Reitoria de Extensão. Ao longo desse período, integrou os três conselhos superiores da instituição como representante da categoria dos técnico-administrativos e compôs a Comissão de Ética Pública, sendo o primeiro servidor dessa carreira a presidi-la.
Atualmente, está lotado no Centro de Ciências da Saúde (CCS), no campus de Maruípe, onde coordena o Núcleo de Direitos Humanos e Saúde (NuDHS). O núcleo desenvolve ações de ensino, pesquisa e extensão organizadas em quatro eixos: direitos humanos, saúde, arte e cultura, e sustentabilidade socioambiental, estabelecendo interlocução entre universidade, políticas públicas e sociedade civil.
Antonio Marx também atua de forma contínua no movimento LGBTQIA+, com a promoção de formações voltadas especialmente a profissionais das áreas da educação, justiça e segurança pública. No campo da educação em direitos humanos, coordena a Rede Brasileira de Educação em Direitos Humanos – Espírito Santo (ReBEDH-ES), que articula iniciativas formativas e interinstitucionais no estado.
Em 2025, esteve à frente da coordenação do curso “Educação em Direitos Humanos: construindo a rede de educadoras e educadores em direitos humanos no Espírito Santo”, financiado pela Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (Secadi), do Ministério da Educação. O curso reuniu educadores e educadoras de diferentes territórios e áreas de atuação.
O projeto “Palco Livre: teatro no presídio LGBTQIA+” integra esse conjunto de ações desenvolvidas por Antonio Marx no cruzamento entre arte, educação e direitos humanos, com foco em contextos institucionais complexos, como o sistema prisional. A iniciativa foi desenvolvida em parceria com o Núcleo de Direitos Humanos e Saúde (NuDHS), a Rede Brasileira de Educação em Direitos Humanos – Espírito Santo (ReBEDH-ES) e com apoio da Secretaria de Estado da Justiça do Espírito Santo (Sejus).
Após as apresentações, o projeto foi divulgado em veículos de imprensa e canais institucionais, integrando o debate mais amplo sobre políticas culturais, práticas educativas e direitos humanos no âmbito do sistema prisional brasileiro.












Agradeço ao ES Hoje e, em especial, ao Giuliano de Miranda pela excelente matéria.
Considero este projeto uma das minhas maiores realizações enquanto servidor público, militante dos direitos humanos e artista em construção.
Acho que a matéria reforçou bem as dimensões do projeto, da arte e da cultura. Parabéns.