O governo dos Estados Unidos atualizou as diretrizes alimentares que orientam políticas públicas e recomendações nutricionais no país. A nova versão trouxe uma mudança simbólica que chamou atenção: a pirâmide alimentar passou a ser apresentada de cabeça para baixo, colocando no topo alimentos como carne vermelha, ovos, leite e manteiga, enquanto cereais e grãos aparecem na base.

A proposta, segundo o documento, é incentivar o consumo de proteínas e alimentos naturais, ao mesmo tempo em que reforça a redução de açúcares, carboidratos refinados e ultraprocessados. Apesar disso, a atualização gerou controvérsia entre especialistas, que veem riscos na forma como a mensagem pode ser interpretada pela população.
“Quando a carne vermelha e a gordura saturada aparecem em destaque, há o risco de a mensagem ser interpretada como um “sinal verde” para aumentar o consumo desses alimentos sem critério. O incentivo excessivo ao consumo de proteínas — especialmente de origem animal — pode trazer riscos, como maior ingestão de gordura saturada, aumento do risco cardiovascular, sobrecarga renal em pessoas predispostas e maior impacto ambiental. O problema não é a proteína em si, mas o desequilíbrio e a leitura simplificada que muitas pessoas fazem dessas recomendações”, explica a nutricionista capixaba Fernanda Duarte.
Gorduras saturadas

Outro ponto polêmico das novas diretrizes é o reconhecimento de gorduras saturadas provenientes de alimentos integrais, como carnes e laticínios, mantendo o limite de até 10% das calorias diárias. Para a nutricionista, a gordura saturada de alimentos integrais pode ser menos prejudicial do que a gordura saturada de alimentos ultraprocessados, mas isso não significa que seja isenta de riscos
“Alimentos integrais, como laticínios minimamente processados, fazem parte de uma matriz alimentar mais complexa, com proteínas, cálcio e outros nutrientes, o que pode modular seus efeitos metabólicos. Ainda assim, o consumo deve ser moderado. O Guia Alimentar brasileiro, por exemplo, reforça que o mais importante não é o nutriente isolado, mas o alimento e o contexto alimentar como um todo”, pontuou Fernanda.
Para a endocrinologista Gisele Lorenzoni, a inversão da pirâmide alimentar contribui para desequilíbrios metabólicos e aumento do colesterol ruim, caso não haja equilíbrio nas escolhas alimentares. “A recomendação, quando há aumento da ingestão de gordura, é priorizar gorduras boas, como as insaturadas presentes em óleos vegetais e peixes, consumindo alimentos calóricos de forma consciente e resgatando a lógica original da pirâmide: base em uma alimentação saudável e consumo moderado de alimentos ricos em gordura saturada”, pontua.
Grãos integrais
A redução do protagonismo dos grãos integrais também é, para a nutricionista Fernanda, um dos pontos críticos da nova pirâmide.

“Grãos integrais são fontes importantes de fibras, vitaminas do complexo B e compostos bioativos, com forte associação à redução do risco de doenças crônicas. Diminuir sua relevância pode contribuir para dietas pobres em fibras e com pior qualidade nutricional. O Guia Alimentar brasileiro valoriza cereais, raízes e tubérculos — especialmente em sua forma in natura ou minimamente processada — como base de uma alimentação saudável”, destaca Fernanda.
Endocrinologia vê mudança de foco
Na avaliação da endocrinologista Gisele Lorenzoni, a inversão da pirâmide não deve ser vista apenas como uma ruptura, mas como uma mudança de foco.

“A inversão traz o olhar para a densidade nutricional, saciedade e função metabólica. Isso é algo que a medicina já discute há anos, não se trata de modismo”, afirma.
Segundo a especialista, o objetivo central da nova diretriz é atuar na prevenção de doenças crônicas desde cedo. “O foco com essa inversão é a redução da inflamação, da resistência à insulina, da perda muscular e do desenvolvimento precoce de doenças crônicas”, explica.
Qual o impacto no Brasil?
Embora as diretrizes sejam voltadas aos Estados Unidos, Fernanda Duarte acredita que o modelo pode influenciar hábitos em outros países, inclusive no Brasil, por meio de redes sociais e tendências alimentares.
“É preciso muito cuidado. O brasileiro pode aproveitar a valorização de alimentos menos processados e a crítica ao excesso de ultraprocessados. No entanto, não deve importar a ideia de dietas muito restritivas em carboidratos, ricas em carnes e gorduras saturadas, que não dialogam com nossa cultura alimentar nem com as evidências que embasam o Guia Alimentar da População Brasileira”, destaca a nutricionista.
“O grande diferencial do Guia brasileiro é que ele vai além dos nutrientes e fala de comida de verdade, cultura alimentar, comensalidade e sustentabilidade. Para mim, esse continua sendo um dos documentos mais completos e atuais quando pensamos em saúde pública e alimentação no Brasil”, finaliza











