Lembro bem das aulas do nosso saudoso Mestre de Direito Penal, Prof. Feu Rosa que, pródigo em memória e humor refinado, enfileirava causos e mais causos narrando as peripécias de gatunos inteligentes, daqueles que agiam sem sujar as mãos ou arriscarem-se às iras da vítima. Suas armas eram os então famosos “contos do vigário”, expressão à época usada para batizar golpes inteligente elaborados para enganar incautos (descuidados), afoitos inescrupulosos ou gente de imensa boa-fé, alvos preferidos por esses predadores.
Duas dessas patranhas parece que posso ouvi-lo contando, olhos azuis esbugalhados, gestos grandiosos e irônico sorriso nos lábios: os golpes “do paco” e o “do Don Juan”. No primeiro deles (o “do paco”, que recebe esse nome em alusão a um “pacote” achado contendo algo de valor) o espertalhão abordava a vítima contando uma história triste – quase sempre de doença na família – e revelando ter achado, na rua, um bilhete premiado de loteria, que era sempre “conferido” por um comparsa ali “chegado” como transeunte curioso, que simulava espanto com a sorte do outro, e completava confirmando os números vencedores divulgados instantes antes.
Em seguida, à vítima era “confidenciada” uma segunda história, quase sempre envolvendo a inimizade mortal do “ganhador” com o responsável pelo pagamento do prêmio, e formulada a tentadora proposta: por uma parcela mínima do prêmio, sacada com sofreguidão na boca do caixa ou da carteira, o “bilhete” premiado lhe seria vendido, o vendedor apuraria o necessário para comprar os remédios para o seu ente adoecido, e seu novo e feliz portador partiria triunfante para colher os inesperados frutos da sorte.
O outro golpe, apelidado de “Don Juan” em alusão a um famoso galanteador da literatura, consistia na abordagem de (quase sempre) uma mulher de conhecidas posses, recém-separada (de preferência abandonada rumorosa e vexatoriamente pelo seu companheiro), ainda abalada pelo ocorrido e com a autoestima em frangalhos. Pois o meliante, estudado e experiente nas artes da sedução, escrutinava a vida da pobre de cabo-à-rabo, conhecendo-lhe os gostos e os nojos, horários, rotinas e, principalmente, patrimônio e, pleno dessas informações, partia-lhe no encalço, simulando alguma situação violenta, estapafúrdia ou arriscada envolvendo-a, para surgir como seu salvador.
Logo em seguida, perfumado e bem-falante, desfiava um rosário de qualidades suas, exatamente aquelas desejadas pela infeliz, mas o fazia pontuando-as como “causas” de recém-sofrido abandono, visto que a sua algoz não suportara mais conviver com ele, coitado, que tinha “manias” para ela insuportáveis como “presenteá-la com flores” (que lhe causavam alergia), levantar a tampa do vaso (coisa de homem frouxo), tocar saxofone na varanda (detestava música à noite) ou viajar pelo mundo conhecendo paisagens românticas (desperdício de dinheiro), coincidentemente as mesmas que eram sonegadas pelo ogro desalmado.
Atada a relação dos sonhos, o golpista passava a apresentar à sua presa negócios espetaculares, recebendo dela o numerário que, investido, renderia, daí alguns meses, lucros espetaculares, pedia-lhe os cartões de crédito ao argumento de que o banco atrasava em restituir-lhe os que perdera recentemente, enfim, sugava o que conseguisse até que sua vítima começasse a desconfiar de tudo, oportunidade aproveitada para dizer-se decepcionado ou simplesmente desaparecer “no vento”.
Eram golpes que hoje em dia esbarrariam em alguns filtros de segurança ou teriam vida curta, visto que essas tais “esmolas em demasia” dificilmente perdurariam por mais que alguns dias e semanas até que a folha-corrida do distinto fosse levantada por uma sobrinha ou filho mais curioso e vezeiro das consultas digitais.
O querido professor sempre terminava suas narrativas obtemperando: primeiro, estelionato é um crime que quase sempre revela dois agentes, o que aplica o golpe e aquele que cai nele porque vislumbrava a possibilidade de auferir alguma vantagem fácil da situação e, segundo, a vergonha do golpeado, antes afetado e machucado pela vida e agora autoproclamado “otário”, corriqueiramente fazia com que aquilo fosse escamoteado do público, escondido das autoridades policiais e absorvido silenciosamente como (mais) uma amarga lição. Inspirou-me trazer essa questão novamente à baila (já abordei esse tema outras vezes) a notícia (uma das dezenas diárias) da prisão de um golpista acusado de tomar dinheiro de milhares de pessoas.
Ora, a dinâmica e as facilidades advindas de enxurradas de ferramentas digitais vêm trazendo à sociedade muita coisa boa, resolvendo em segundos o que outrora levava semanas ou meses, aproximando pessoas, azeitando relações e aviando expedientes antigamente inimagináveis ou de manejo tortuoso. Mas também proporcionando espaço e oportunidades imensas para delinquentes inteligentes e inspirados, craques na manipulação de dados, predadores dedicados e frios, e conscientes de que seu sucesso demanda doses cavalares de agilidade e exposição, a primeira para diminui-lhe os riscos de identificação e captura, a segunda para aumentar-lhe o “plantel” de possibilidades.
Se naqueles tempos “analógicos” resultados de loterias, informações bancárias e econômicas e perfis sociais impunham consultas demoradas a impressos, informações muitas vezes indisponíveis e coletas de fatos e impressões pessoais por muito tempo, agora isso tudo está disponível, ao menos para reflexão, de qualquer pessoa que se disponha a procurá-las. Entretanto a natureza humana, nossas fraquezas, aflições, angústias e ansiedades, essas são exatamente as mesmas desde há milênios, e sabê-las manipular também é arte dominada com esmero por quem se dedica a enganar, apoderar-se do que não lhe pertence para ganhar a vida.
Registro que não me refiro a crimes apelidados de “cibernéticos” como o “phishing” (uso de emails ou links falsos para capturar senhas e dados bancários), sequestros de contas ou fraudes feitas com emprego de inteligência artificial, mas daqueles praticados por pessoas que exibem seus próprios rostos, têm contas bancárias em instituições financeiras regulares, endereço fixo e identidades comprovadas. Esses espertalhões (e espertalhonas) oferecem-se (ou insinuam-se) como “ coaches” (técnicos ou tutores) ou “influencers”, a maior parte dos primeiros sem absolutamente nenhuma história ou experiência anterior que os credencie, os últimos surfando em algum modismo, vaidade comum ou fama recém alcançada.
Atletas de ponta, empresários de sucesso, ou qualquer um que se destaque além da média nessas atividades, condições ou circunstâncias dedicam-se vários anos, sofrem mais insucessos do que vitórias, perdem compromissos, sacrificam suas vidas pessoais, afetivas e sociais para atingirem (os poucos que atingem) o estrelato, que ainda assim é efêmero e sujeito a um sem-número de intercorrências, riscos e custos adicionais.
Outrossim, características físicas, gostos, modos de vida ou fatos que catapultaram determinadas pessoas ao estrelato quase sempre são fruto de conjunções improváveis, acasos, e, portanto, intransferíveis. Por derradeiro, por qual razão lógica alguém que usufrui comercialmente dessa fama compartilharia seus segredos e “macetes” para aquela multidão que se propõe a pagar para obtê-los, igualando-se aos seus “mitos”, “ídolos”, “treinadores” ou excepcionalidades vivas? Em qualquer área do agir humano, em qualquer atividade digna (intelectual, empresarial, artística, esportiva etc.) que possibilite a ascensão de uma pessoa mediana aos seus degraus mais altos não há fórmula mágica, não há atalho, não há outro método senão a somatória de esforços, trabalho, dedicação, resiliência, foco, propósito definido e aprendizado.
Resultados rápidos são raríssimos e, muitas vezes, quando nos deixamos relaxar após ocorrerem, terminam conspirando para a derrocada de todo o processo ainda inacabado. Pior de tudo: se os estelionatários de antigamente ainda deixavam às suas vítimas alguma chance de recuperação, os atuais exploradores da vaidade e da ignorância alheias passam a régua, “limpam a banca”, levam consigo não apenas os recursos, o tempo, e as energias de suas presas, mas destroem irremediavelmente suas autoestimas, porque se outrora a vergonha conduzia o caso para arquivos enterrados e longe do conhecimento mesmo dos conviventes mais íntimos, hoje esses fatos, nomes, e efeitos são instantaneamente expostos ao conhecimento, à crítica e ao escárnio de milhões de pessoas.










