José Cirillo
José Cirillo
José Cirillo é doutor em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), mestre em Educação pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES,) onde é professor titular e coordenador do Programa de Pós-graduação em Artes. Pós-doutor em Artes pela Universidade de Lisboa. Foi Pró-reitor de Extensão da UFES (2008-2014); Diretor do Centro de Artes (2005-2008). Atua como coordenador do Laboratório de Extensão e Pesquisa em Artes (LEENA), desenvolvendo pesquisas sobre a arte e a cultura capixaba.
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Ainda há pintura: a figuração abstrata na pintura de Claudia Colares

Ainda há pintura: a figuração abstrata na pintura de Claudia Colares
Objetos geradores no ateliê de colares. Foto da artista

Creio que seja de conhecimento de quase todos que estou passando por uma fase de perda, com o falecimento da minha mãe em janeiro. 2025 não começou como eu esperava. Mas, dizem, é vida que se segue.

Manter esse espaço nosso de reflexão sobre a arte e a cultura capixaba, nesse tabuleiro complexo que é a nossa sociedade e com os atravessamentos da vida, não se torna a tarefa mais prazerosa nesse momento de dor profunda. De perda.

De outro lado, esse tema da morte sempre me acompanhou desde minha graduação, quando Philippe Ariès era meu teórico predileto. Dai minha reflexão de hoje, e que não é nova, pois desde os anos de 1980, a morte da pintura tem sido tema e controversas argumentações. Eu mesmo, logo no início dessa coluna, refleti sobre o trabalho de retratos numa exposição na galeria Matias Brotas.

Mas, retomo aqui alguns pontos, em especial a partir do trabalho de uma artista que particularmente gosto muito, tanto pela obra, quanto pela coragem de desbravar horizontes entre a figuração e a abstração. Tema que embalou a produção artística no final do século XIX, e que ainda não digerimos muito bem.

Ainda há pintura: a figuração abstrata na pintura de Claudia Colares
Natureza morta com cestas de maçãs (1890-4), detalhe. Cézanne. Instituto de Arte de Chicago

As investidas dos artistas do final do século XIX, associadas às experiências das Vanguardas históricas discutiam os destinos da pintura; mas o campo ampliado da segunda metade do século XX parecia ter condenado a pintura à extinção. Debate que se espalhou pelo mundo.

Se perguntava aqui no Brasil ao final do século XX sobre a possível morte da pintura. Esta aparentemente havia perdido o seu vigor e espaço para outras linguagens, ditas “mais contemporâneas”. Iniciativas importantes, de instituições culturais públicas ou privadas, buscaram mapear e traçar o panorama da arte naqueles últimos anos e permitiram verificar que ainda havia produção pictórica importante no país. E esta estava não mais centralizada no eixo hegemônico dominado pelo mercado. Existia forte ainda nas bordas – nos gestos daqueles excluídos ou ignorados pelo sistema das artes.

Existia nas mãos daqueles que desafiavam o tempo e os valores, quiçá passageiros, parecendo duradouros; certamente excludentes.

Existia com aqueles que se tem completos na expressão da massa colorida que desliza sobre o pano ainda, ou quase sempre, virgem. Esquecidos pelo sistema. Cientes de sua opção.

Existe, ainda, na alma daqueles que não pararam de pintar, não porque não quiseram, mas porque não podem parar de pintar. Suas almas são coloridas. Tomadas pelo cheiro de solventes. Mergulhadas no perfume que exalava de suas telas. A pintura lhes é vida.

Vida escolhida pela razão. Imposta por desejos de uma paixão que não se rende.

Ainda há pintura.
Ainda há figura.
Não há mais fundo.

Essa parece ser a pintura de Cláudia Colares.

Ainda há pintura: a figuração abstrata na pintura de Claudia Colares
Claudia colares, 2020. Acrílico sobre tela

Figura e fundo se fundiram em uma explosão de cores. Numa paleta quente. Em gestos amplos sobre imensos planos, outrora brancos.

Das primeiras telas figurativas, do inicio de sua carreira como artista, Colares trouxe o domínio da forma.

Da experiência de uma pintora, que se entrega pelas madrugadas na exaustão de grandes e desafiadores planos brancos, trouxe o domínio do uso do óleo.

Da terebintina que lhe corre nas veias, da tinta domada espremida de seus tubos aquecidos em uma mão certeira, trouxe o saber e o destino de cada cor, de cada gesto.

Ainda há pintura: a figuração abstrata na pintura de Claudia ColaresA Pintura de Colares é assim.
Viva.
Pulsante.
Atrevida.
Ela se atreve a pintar que a pintura permanece.

Ainda há pintura nas tintas que se misturam. Nas cores que não se atacam. Na fortaleza de um gesto com tendência e intencionalidade.

A intenção de Colares parece clara: a pintura existe. A figuração persiste.
Ainda há pintura.

Revisão: Giulano de Miranda

José Cirillo
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José Cirillo é doutor em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), mestre em Educação pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES,) onde é professor titular e coordenador do Programa de Pós-graduação em Artes. Pós-doutor em Artes pela Universidade de Lisboa. Foi Pró-reitor de Extensão da UFES (2008-2014); Diretor do Centro de Artes (2005-2008). Atua como coordenador do Laboratório de Extensão e Pesquisa em Artes (LEENA), desenvolvendo pesquisas sobre a arte e a cultura capixaba.

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Comentários
  1. Parabéns, Cirillo, pela sensível e precisa análise da pintura de Cláudia Colares. Também acompanho sua trajetória há anos e compartilho da mesma percepção sobre a maestria com que ela transita entre a figuração e a abstração — com gestos potentes, intencionalidade clara e uma paleta que pulsa vida e intensidade.

    Hoje, fixada no Porto, em Portugal, Cláudia tem tido acesso à crítica e ao olhar atento de importantes críticos de arte europeus. No entanto, é fundamental que o Brasil também se abra com mais atenção à produção de seus artistas plásticos que estão, muitas vezes, deixando o país em busca de espaços e reconhecimento fora do circuito tradicional. A crítica brasileira precisa ampliar seu olhar para além do filtro das grandes galerias — precisamos estar atentos ao que está sendo produzido nas margens, nos ateliês mais silenciosos, nos movimentos menos institucionalizados, mas absolutamente relevantes.

    Como pesquisador e pós-doutor em Antropologia Social, ex-presidente do IBRAM, do Instituto de Arte Contemporânea e da Associação dos Amigos do MAC USP, e membro de conselhos de museus como o MASP, o Museu Lasar Segall, o projeto Leonilson e o ICOM (braço de museologia da UNESCO), posso afirmar o quanto é essencial termos vozes críticas como a sua, que valorizam o que realmente importa: a persistência da pintura enquanto linguagem vital e a força dos artistas que não se rendem à lógica do mercado, mas continuam a criar porque simplesmente não podem deixar de pintar.

    Abraço com apreço e admiração.

    Pedro Machado Mastrobuono

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