
Essa reflexão não é minha, mas de um amigo que refletiu a morte do músico Elias Belmiro. Qual o papel do estado na preservação de seu patrimônio artístico e cultural? Qual o papel do estado quando um patrimônio vivo está perdido em si mesmo e não consegue preservar o autocuidado?
Trabalho com comunidades tradicionais desde 2008 e nelas tenho encontrado o real sentido do termo “patrimônio vivo”. Pessoas que são mais que si mesmas ou seus familiares. Pessoas que em sua subjetividade, inventividade e criatividade são tão públicas quanto um monumento, pois são memória viva.
Elias Belmiro era isto. E pedia, silenciosamente, ajuda ao coletivo. Uma imagem recente ficou na minha mente. O Relato de um amigo que foi ao Sonia Cabral para a apresentação de outro músico capixaba, seu ex-aluno, que faz história na Itália. Não vou seguir meu texto com minhas palavras, mas com o relato emocionado desse amigo, que me fizeram encher os olhos de água no dia que me contou, e hoje, ao reouvir o relato, sigo emocionado. O Evento era o Sexto Festival da Canção, em Homenagem a Maurício de Oliveira. São dele agora as palavras, que transcrevo, tomado tanto pela emoção quanto pela tristeza.
Vejo com os olhos da minha mente a cena desse amigo, sua esposa e outro amigo subindo as escadarias do teatro.
Segue o relato oral que a mim chegou de sua boca: “O Festival da Canção é em homenagem a Mauricio de Oliveira com algumas premiações, resultados de premiações de um concurso que havia acontecido. Havia alguns convidados para tocar durante essa festa; uma dessas pessoas era o Esdras Madalon que é um capixaba e que há 20 anos, oriundo da Fames, né? … que há 20 anos toca na Itália e que foi convidado especialmente para tocar nesse evento.
E aí nós fomos lá com o Fabrício, porque o Esdras é um amigo pessoal do Fabrício; estudou com ele. Fomos até lá no dia 8 de junho, à noite, no sábado para prestigiar o festival, prestigiar o amigo também que depois de 20 anos estava voltando a Vitória nessa condição já de artista para fazer a sua apresentação.
Quando nós chegamos ao Palácio Sônia Cabral, as pessoas já estavam entrando. Já no final da entrada, nós nos deparamos com uma figura sentada no cantinho da escada, uma figura retraída, calada, junto ao seu lado uma sacolinha de papel, ou alguma coisa que parecia ser uma garrafa, […] e essa pessoa ela não incomodava ninguém, ela não acenava pra ninguém, ela estava ali sentada, né?
E aí ao me aproximar um pouco pra gente poder entrar, eu reconheci o Maestro Elias Belmiro, que é uma figura que a gente já conhece tanto da imprensa como pela carreira que teve, que tinha na época, e da relevância como um dos maiores violonistas do estado do Espírito Santo. E quando a gente estava entrando, sabe, chegamos eu, o professor Fabrício, a professora Fabiola, e eu perguntei a ele, né?
Eu perguntei: alô, Maestro, como é que a pessoa está? Como é que tá? Como é que tá? Como é que tá de saúde?
E quando ele me respondeu: ah, não muito bem, né? Problemas com a bebida, você sabe como é que é, né?
Eu falei, ah, mas vai melhorar, Maestro, vai ficar tudo bem. E aí, um fato muito comovente aconteceu. Quando a gente estava ainda conversando, passou alguém, provavelmente um aluno com violão, o reconheceu o professor.
Oh, professor, se você quer tocar um pouquinho, toca aqui pra gente um pouco.
E quando ele respondeu, apesar da bebida, apesar do torpor, apesar de tudo
Eu não posso desonrar esse instrumento na condição que eu estou.
E tudo ficou na minha cabeça, né? E aí eu perguntei pra ele: o que a gente pode fazer pelo senhor?
Ele falou: eu queria ver o meu aluno. Eu queria encontrar o meu aluno Esdras, que vai tocar aqui.
A gente teve aquele momento de dúvida, né? Ele naquele estado, talvez, de confusão que ele estivesse, a gente consultou o Fabrício, que é amigo do Esdras, Fabrício não fez restrição, apesar de não saber se ele deu aula pro Esdras, né? Mas, e aí ele insistia, né?
Eu quero ver o Esdras, eu quero ver o Esdras, mas eu não tô conseguindo chegar lá dentro, tô com problemas de saúde, de coluna. Será que vocês poderiam me levar?
Provavelmente ele fez aquele pedido a várias pessoas que ali passaram.
Mas nesse momento a gente decidiu correr esse risco. Conversei com a Fabíola, com o Fabrício, vamos levá-lo.
Falei com ele: nós vamos levá-lo, vamos levá-lo, maestro. E ele sempre estava com a sacolinha de lado, que estava com a bebida. Se ergueu, apoiou na gente. Realmente ele não estava conseguindo andar, estava curvado. E fizemos um longo trajeto que parecia uma eternidade, subindo as escadarias do Sonia Cabral… até o auditório. Quando chegamos lá, já estava tudo arrumado; as pessoas estavam sentadas. Algumas demonstraram um pouco de estranheza, porque ele não estava em suas melhores condições, ele estava na situação de rua.
O importante é dizer que o maestro Belmiro, ele não estava sujo, ele não estava fedendo, ele não estava nada disso. Ele só estava ali, escravo da dependência química, da doença. Ele estava lá, mas extremamente respeitoso, falando baixo, sem constranger ninguém a não ser com sua própria presença. Nós pedimos licença, colocamos ele na primeira fileira, sob o olhar de estranhamento de algumas pessoas.
Finalmente o organizador do evento começa a fazer as apresentações, dizer do que se trata o evento; agradecer a presença das pessoas, pessoas de fora que vieram prestigiar o evento. Mas, ele fala – pra minha surpresa -, “Eu gostaria de agradecer, com muita alegria, a presença de um dos maiores violonistas desse estado, o maestro Elias Belmiro.
E aí todos bateram palma, todos se comoveram, foi muito impactante.
A partir daí, começaram as apresentações. O que aconteceu é que eu praticamente não tive condições de acompanhar o evento, porque na perspectiva de respeitar também o direito das outras pessoas, eu fiquei meio que vigiando o Professor Belmiro ali o tempo todo; pra ver se tinha algum intercorrência, se ele se levantava… e posso te afirmar que durante todo o tempo que esteve ali, como artista que é, que se sobrepôs à bebida, ele não interferiu em um segundo.
As apresentações foram passando, e é sempre aquela dúvida, ele conhecia mesmo o Esdras? O Esdras foi seu aluno? o Esdras sabia de quem se tratava?… E isto foi dirimido assim que o Esdras entrou pra se apresentar.
Ele coloca o violão, ele agradece ao Espírito Santo, a terra para onde ele volta depois de 20 anos; ele agradece ao professor dele, quem o incentivou na Fames, ele agradece aos colegas…
De repente ele olha e se depara com o maestro Belmiro. Aquele olhar ali, aquele momento meio que congelou todo mundo, e ele simplesmente esticou os braços. E o maestro Belmiro levantou, meio trôpego, foi até ele, se abraçaram longamente…, começavam as palmas, o maestro volta ao seu assento e o Esdras fala:
“Foi a primeira oportunidade que eu tive em solo capixaba, a de abrir um show do já consagrado na época, maestro Elias Belmiro, num show na Universidade Federal do Espírito Santo. Ele me deu a oportunidade, a um garoto de 14 anos, de abrir o seu show. Nesse show também estava Maurício de Oliveira.
E aí foi uma comoção geral, o Belmiro aplaudiu, ele fez sua apresentação, tocou uma peça de Maurício de Oliveira de nome “Angústia” e ao término da sua apresentação ele, Esdras, agradece, e se retira.
O Belmiro estava muito emocionado, mas, quase como se ninguém percebesse o Belmiro, ele se retira, como que livrando as pessoas da presença incômoda dele.
Ele não fala com ninguém; ele não pede minha ajuda e quando eu percebo ele está agarrando as paredes e se retirando, dando mostras de que ele foi ali ver o aluno.
Isto não é literatura, é a realidade narrada na oralidade. Uma voz que desenha uma das últimas aparições pública do maestro Elias Belmiro. É o índice de um estado de socorro, de um grito que o Estado não ouviu. Parece que não se queria ouvir.
Obrigado Giuliano Miranda por me fazer chorar novamente ao ouvir a história desse abandono. Não apagamos apenas os monumentos, apagamos também as pessoas.
Perdemos Belmiro, não vamos perder também a sua memória!
Serviço:
Elias Belmiro e seu violão









O relato descrito em seu artigo é mesmo muito emocionante. É muito ruim perdermos um artista do nível de Elias Belmiro nas circunstâncias dos fatos. Agora, o que tem a ver o Estado com a escolha de Elias? Muito embora seja triste uma pessoa perder a batalha para o alcoolismo, esta foi uma escolha dele. Ele tinha família mas optou pela vida nas ruas. Era um direito dele. A individualidade do cidadão foi respeitada pelo Estado. Aliás, o Estado sempre assistiu ao Elias e todos os moradores de rua com serviços de atenção à saúde da população nesta situação. Daqui pra frente, o que pode ser feito é a preservação da memória do artista como patrimônio do povo capixaba, com a concordância da família e com o apoio do Estado.