Adolescência: a confusão na vida de quem não é adulto e nem mais uma criança

Ainda há quem chame de ‘aborrecência’, essa fase da vida, em que cada olhada no espelho reflete uma novidade. Se as mudanças físicas são aceleradas, por dentro todo esse desenvolvimento vai mais devagar. Tantas alterações externas, nem sempre são vistas como boas, as vezes tudo isso, causa insegurança, medo, vergonha e muita timidez.

Uma pesquisa europeia comparou nascidos nos anos 2000 com jovens dos anos 90 e constatou que os nasceram depois de 1999 sofrem mais cedo com problemas emocionais e psicológicos, iniciando os sintomas aos 9 e tendo pico aos 14 anos.

Elza Leite, psicóloga e especialista em Terapia Familiar ressalta a complexidade dessa fase da vida, que neste 22 de setembro, no país, é lembrando com o Dia Nacional de Saúde de Adolescentes e Jovens.

“A adolescência por si só é uma fase de extrema complexidade, vulnerabilidade do ponto de vista emocional. Primeiro porque tem a transição de fase, a despedida da infância, da puberdade, o começo da adolescência, as transformações hormonais, a sexualidade, afinidades com os pares, identidade de gênero, mudanças do corpo, não aceitação do corpo, espinhas. São tantas questões que a autoestima fica muito fragilizada nesse período”.

Quem tem adolescente em casa sabe que esse período é muito complicado. A menina que era um grude nos pais, agora acha que eles são “sem noção”. O menino já não quer mais o beijo da mãe, a mesma para quem ele olhava cheio de ternura. Aí começa o choque de geração.

“Foi a fase mais complicada e mesmo que eu entendesse que passaria, era desgastante. Hoje, com Pedro completando 19 anos, parece que as coisas começam a voltar para os eixos”, lembra a administradora Kelly Reis.

Para Naira Teixeira, psicóloga, já não cabe mais ignorar o adolescente e deixar que ele mesmo se resolva, como passaram muitos hoje adultos. “A psicologia vê que é necessário dar muita atenção a esse momento da vida. Por esse entendimento são identificadas situações de psicopatologia ou sofrimento maior  na adolescência, muito mais do que nas gerações passadas. Não é que há uma patologização do comportamento instável ou transgressivo comum da adolescência, visto antes como uma “aborrecência normal”. É que hoje estamos mais preparados para identificar e cuidar, e essa diferença é um dos indicadores dessa mudança estatística”, destaca.

A psicóloga destaca ainda que existem outras coisas que influenciam essa mudança (tempo dos pais, exposição a muitas informações, maior facilidade de consumo). Entretanto, hoje se tem maior atenção com adolescência e que é o momento dos pais precisam ter paciência.

“Os pais tiveram uma outra criação, cultura, valores morais, uma forma de ver o mundo totalmente diferente, e nessa hora precisam entender que já passaram por isso. Eles precisam entender que o adolescente quer se impor, se achando o sábio, totalmente diferente do que foi aprendido pelos mais velhos”.

Tão jovens

A terapeuta relata que essa é uma fase de muita pressão social e psicológica. “É um combo, o corpo, namoro, escolha da profissão, o pré-vestibular que pressiona, ter que escolher uma profissão, tem que ser independente, não pode decepcionar os pais, tem que ter dinheiro. O adolescente e o jovem querem fazer as próprias escolhas sem ninguém se meter na vida deles”.

Esse choque de geração não começou agora, não tem uma data para acabar e não existe um tempo determinado. Mas uma coisa é certa: quem controla são os pais, que devem dar apoio. “O córtex pré-frontal que é onde tomamos as decisões não está maduro, ele está se desenvolvendo e nessa fase o adolescente se coloca muito em comportamento de risco, dificuldade em lidar com regra, muita ansiedade”.

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Da mesma forma que seguraram as mãos dos filhos para dar os primeiros passos, na adolescência os pais devem continuar de mãos dadas, se colocando acessíveis. Os filhos precisam entender com clareza que os pais já foram da mesma idade, tiveram as mesmas questões e que agora estão ali, maduros para ajuda-los a passar por tudo.

“Mesmo cansados os pais devem fazer com que os filhos entendam que não estão sozinhos, que não vão comparar com os outros e se precisar pedir ajuda profissional. Se o psicólogo achar que deve, ele encaminha para um outro especialista para dar o suporte medicamentoso”, explica Elza Leite.

Aos poucos, todo esse emaranhado de emoções começa a se desfazer. Aquela voz desafinada, ganha o tom certo, as espinhas dão uma trégua, as amizades acontecem e até os pais “voltam” a ser legais. O nome disso é aprendizado. Entretanto, cada indivíduo é único e a passagem pela fase precisa ser de cuidados. “Não podemos patologizar o normal e nem naturalizar o patológico. Se o processo da adolescência está sendo muito sofrido para o indivíduo é preciso buscar ajuda profissional. O adolescente precisa se relacionar, precisa suportar as mudanças imperiosas dessa fase, é preciso ser estimulado a realizar coisas que tragam satisfação e bem-estar nessa fase da vida”, finalizou Naira.

Texto de Andressa Mota
Edição de Danieleh Coutinho

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