O futebol feminino brasileiro, embora esteja em sexto lugar segundo ranking feminino da Federação Internacional de Futebol (FIFA), ainda sofre com estigmas e preconceitos, que resultam em falta de visibilidade e patrocínio. Tudo isso impede o desenvolvimento do esporte e acaba desmotivando meninas a trilharem esse caminho.
A falta de visibilidade não é exclusividade do país, mas se acentua conforme observamos os cenários nacional e estaduais. A realidade em muitos estados é a ausência de categoria de base feminina. Nesse sentido, muitas meninas ingressam no desporto tenham que jogar com bases masculinas.
A Federação de Futebol do Espírito Santo (FES), por exemplo sequer tem dados sobre os times femininos oficialmente registrados.
Renata Dias, volante do Vila Nova, de Vila Velha, começou a jogar bola com os meninos e que uma das maiores dificuldades do futebol feminino é a falta de apoio. “Muitas meninas não jogam futebol por medo de serem julgadas por amigos ou até mesmo familiares. Comecei a jogar futebol com 9 anos de idade, jogava com meninos e fui buscando times femininos até achar o Vila Nova que me acolheu e tem me dado várias oportunidades”, relata.
Ela explica que começou em base feminina, porém de beach soccer. “Faz muita falta uma base na vida de algumas atletas pois a ‘maioria’ não tiveram o privilégio de passar por uma base”, observa.
O time feminino Vila Nova possui seis títulos estaduais, sendo o maior campeão da história. Fundado em 2007, foi o primeiro campeão do Campeonato Capixaba Feminino em 2010. Nas dez edições da competição o clube alcançou a final em oito ocasiões.
Ana Paula Monteiro, lateral esquerda do Prosperidade, de Vargem Alta, acredita que para se firmar no futebol feminino é preciso muita resistência, pois ainda hoje existe discrepância de prioridade dentro das próprias federações. “As pessoas precisam enxergar que futebol não é somente para homens. Para mim infelizmente o próprio estado, nossa federação não trata os dois com igualdade, tem muita diferença ainda”, afirma
Para ela, a falta de investimento aliada a falta de visibilidade impede que o futebol feminino avance. “Precisamos de patrocínio, vejo empresários investindo dinheiro no masculino e simplesmente ignoram quando pedimos ajuda para as meninas. Nossa resistência é que faz acontecer, até hoje ‘brigamos’ por reconhecimento. Acho que falta de visibilidade, jogos sendo transmitidos e tal, quanto mais pessoas souberem maior pode ser a quebra de preconceito”, pondera.
Em 2017 o Prosperidade disputou pela primeira vez o Campeonato Capixaba de Futebol Feminino, onde a equipe conquistou o vice-campeonato da competição. O time foi vice-campeão em seu ano de estreia e também em 2019.
FALTA DE BASES
A lateral esquerda do Prosperidade conta ainda que a falta de uma base é um dos pontos principais. “Eu treinei com meninos em uma escolinha, e não tinha essa de respeito. Era jogo sério, tomava minhas pancadas e fazia meus gols. Alguns times aceitavam minha presença nos jogos, outros não, e assim fui seguindo até receber um convite do Vasco. Mas infelizmente por não ter condições não pude ir. Hoje o cenário não é muito diferente”, explica.
Ela observa : “Jogamos porque amamos, mas a maioria como eu não vive disso,temos que trabalhar, estudar e algumas ainda têm seus filhos. É muito difícil tirar um tempo para treinar e se dedicar de uma forma mais intensa”, pontua.
A técnica do Prosperidade Ana Cristina Magnano acredita que a falta de uma estrutura de base é a principal dificuldade que os times femininos enfrentam. “ A estrutura de base praticamente não existe. A formação no feminino precisa ter a mesma estrutura que tem para meninos. Isso acontecendo melhora o nível dos atletas e enriquece a qualidade dos jogos”, afirma.
Para Ana Cristina, que começou em 2010 como treinadora da equipe do Comercial de Castelo e hoje atua majoritariamente no prosperidade, o investimento financeiro seria uma forma de ajudar a dar mais visibilidade às mulheres no futebol. “Como ex-atleta é uma alegria colaborar com a visibilidade e estrutura do futebol feminino. Mas o futebol feminino deixa muito a desejar em relação às competições, estrutura social, desigualdade salarial . O preconceito ainda reflete muito na categoria. Precisamos de mais investimento nas categorias de base e de campeonatos mais bem organizados, conclui”.
INCENTIVO ÀS MENINAS

O projeto Ponte Preta atua há dois anos no bairro Andorinhas, em Vitória. A iniciativa que ensina futebol de campo a meninas, atualmente conta com 40 jogadoras treinando regularmente.
O presidente do projeto Rudiery dos Santos destaca que o Ponte Preta é importante para minimizar a desigualdade social levando educação e cultura. “O futebol hoje é uma forte ferramenta para inclusão social , ele contribui em diversos ensinamentos como disciplina, respeito, auto estima, comprometimento e outros. Também é capaz de abrir oportunidades para toda vida para nossas meninas”, ressaltou.
Contudo, a maior dificuldade do time é financeira. “É um projeto sem fins lucrativos, dependemos de doação. Nossos educadores são todos voluntários , precisamos de apoio com materiais esportivos, condução para levar as atletas nos jogos e verbas para custear campeonatos”, explica.
As jogadoras que integram o projeto têm entre 14 a 20 anos. O único critério para participar do projeto é ser maior de 13 anos, por não haver categorias menores de treinamento. Apesar de estabelecido em Andorinhas a iniciativa também abarca bairros adjacentes.
Os treinos acontecem às terças e sextas na quadra de Andorinhas, próximo à unidade de saúde do bairro. Para saber mais sobre a iniciativa ou participar do projeto clique aqui.
Crédito: imagem em destaque – Divulgação/ Vila Nova.










