Foto: Rodrigo, Verônica e Júnior integram, junto com as famílias, a estatística de quem não tem moradia própria. Foto: Thais Rossi
Rodrigo, Verônica e Júnior integram, junto com as famílias, a estatística de quem não tem moradia própria. Foto: Thais Rossi

O município de Vitória tem 10.500 famílias sem moradia própria, segundo levantamento da Prefeitura Municipal. São famílias que moram de aluguel, com os pais, em imóveis cedidos, áreas de risco, em barracos de madeira e na rua.

O último levantamento da Associação de Moradores do Centro de Vitória (AMACentro) mostrou que mais 200 prédios estão desocupados no bairro. No entanto, essa informação é desencontrada. A Secretaria de Obras e Habitação (SEMOHAB) não tem um levantamento oficial, mas informou que seis prédios estão ocupados por famílias: três pertencem à Prefeitura de Vitória, dois são particulares e um é do Governo do Estado.

“Quando ocorre a ocupação em um prédio da prefeitura, abrimos o diálogo. Pedimos que os ocupantes saiam do prédio, porque são prédios de bem público. Pedimos que eles deem entrada no Cadastro Único para Programas Sociais (Cadúnico), porque acreditamos que todos têm direito a moradias por parte da prefeitura. Sugerimos e encaminhamos o processo. Quando eles não aceitam sair. Entramos com o pedido de reintegração de posse, porque além de ser de uso público, entendemos que elas não são dimensionadas a esse fim e gera riscos. Pedimos ao Judiciário a posse para voltar a fazer a gestão, fazendo vistoria e manutenção preventiva”, afirmou o Secretário Municipal de Obras e Habitação, Sérgio Sá.

Segundo o secretário, o CadÚnico prioriza famílias com menor renda per capita; mulheres como chefe de família e famílias com o maior numero de crianças. Por cota definida em lei, 5% das residências são para pessoas com deficiência e 3% para idosos.

Antigo Hotel Majestic também está ocupado. O número de prédios sem utilização, que pertencem ao poder público do Espírito Santo, é incerto. Foto: Thais Rossi
Antigo Hotel Majestic também está ocupado. O número de prédios sem utilização, que pertencem ao poder público do Espírito Santo, é incerto Foto: Thais Rossi

“O que colocamos para elas é se cadastrar e aguardar. A renda per capita não é definida, porque depende. Uma família com cinco pessoas, por exemplo, ganha R$ 1000. Também há outras prioridades: ganhar até cinco salários mínimos, não ter casa própria nem financiamento e morar em Vitória há pelo menos um ano”.

Quanto ao programa Morar no Centro, da Prefeitura de Vitória, que tinha como um dos objetivos reduzir o déficit habitacional da cidade, Sérgio Sá afirmou que está em pleno andamento. Já foram comprados quatro prédios, dos quais três foram reformados e 94 moradias entregues à famílias de baixa renda.

“Estamos em fase final junto a Caixa Econômica Federal para finalizar o Edifício Santa Cecília. Com isso, serão mais 40 unidades habitacionais para quem mora em morros do Centro, como Piedade e Fonte Grande. Não tem data para entrega porque dependemos da análise da Caixa e também da desocupação das casas”.

O secretário afirmou que a Prefeitura já entrou com uma liminar no Judiciário para reintegração de posse do Edifício Santa Cecília. Porém, o pedido foi negado porque a Justiça entendeu que a decisão precisa ser por mérito e eles aguardam uma nova decisão. Às famílias que desocuparem os prédios resta, por decisão própria, escolher para onde ir.

Santa Cecília

WhatsApp Image 2018-05-02 at 12.20.05 (2)Um dos prédios ocupados é o Edifício Santa Cecília, no Parque Moscoso. Segundo um dos representantes do movimento, Samuel Coelho, eles tentam diálogo com o poder público. Afirmou também que eles foram enganados pela organização Brigadas Populares e também pelo Movimento Nacional de Luta por Moradias. A promessa era de que, após uma reforma na IAPI, cerca de 40 famílias iriam para lá. Como nada foi feito, o grupo não descarta a possibilidade de voltar ao local.

“Foi feito um acordo na sede do IAPI, para que a entidade que ganhou a licitação pela reforma incluísse 40 pessoas. Mas apareceu outro documento, dizendo ser fachada. Fomos enganados pelas Brigadas Populares e pelo Movimento Nacional de Moradia. Pegaram nosso cadastro, disseram estar tudo certo, mas usaram nossos dados para ganhar dinheiro. Ganharam R$ 9 mil por uma cooperativa que nunca chegou ao prédio. Vamos tentar negociar. Se não chegarmos um diálogo ou acordo, vamos ocupar o IAPI, e a entidade terá problemas”.

Um incêndio chegou a ser registrado no antigo IAPI, na ocupação que ocorreu em julho de 2017. Diante do que aconteceu no Centro de São Paulo, quando um prédio de 24 andares desabou justamente após um incêndio, ele explicou que os ocupantes tomam todas as preocupações para evitar qualquer tipo de acidente. Ao entrar nos prédios, eles observam se o espaço é viável, para preservar a integridade física das famílias.

“Temos um grupo de engenheiros que olham as fotos feitas por nós, bem nítidas, que mostram, por exemplo, vigas descascando. Temos todo um suporte técnico, eletricistas formados no SENAI, que instalam a fiação e orientam o que os moradores podem fazer. Temos mestre de obras para construir banheiros. Todo um conjunto de regras”, afirmou.

Ocupantes

Foto: Famílias dividem espaço de um cômodo, em um local sem estrutura. Foto: Thais Rossi
Foto: Famílias dividem espaço de um cômodo, em um local sem estrutura. Foto: Thais Rossi

O antigo prédio do colégio Americano Batista, na Rua Loren Remo, no Centro de Vitória, também está ocupado por nove famílias há dois meses. Júnior Pereira da Rocha é quem está à frente da ocupação. Aos 35 anos, ele se juntou ao movimento, há cerca de 15 dias, com a esposa, grávida de sete meses, por estar desempregado.

“Eu morava em Belo Horizonte e vim para Vitória por falta de emprego, há nove meses. Eu trabalhava por dia, como ajudante de pedreiro, mas não me pagaram. Fiquei em situação de rua seis meses e meio com minha esposa, e após isso, conheci uma pessoa e fui chamado para integrar a ocupação. É uma adrenalina morar numa ocupação. É como se a qualquer hora o dono fosse chegar e pedir o imóvel. Temos sempre um advogado e quem possa correr atrás dos documentos para tentar nos ajudar. Nós aqui lutamos por moradia”.

Segundo ele, há diversos prédios vazios. O prédio está condenado, mas por orientação de um engenheiro, eles permanecem no local por considerar que não há riscos estruturais. “Nenhum representante veio aqui. Estamos aguardando. Vamos continuar aqui. Queremos melhoria para nós. Caso a gente precise sair, vamos para outro lugar”, afirmou.

O desempregado Rodrigo Ramos Delfino, 31, também está na ocupação. Fora do mercado de trabalho há mais de um ano, ele morava no bairro Santos Dumont, em Vitória, mas acabou despejado por falta de dinheiro para pagar o aluguel.

“A pessoa pediu a casa e não vi outra alternativa a não ser acompanhar meus amigos, que lutam por moradia. Muitos deles vem da Fazendinha e estão na luta por moradia junto ao Governo do Estado. Estou sabendo que algumas já saíram, mas a prefeitura quer passar para pessoas de fora. Quem precisa mesmo, eles não estão colocando. Às vezes, são pessoas que até tem moradia. Não quero chegar a situação de rua. Por isso, estou aqui. Tenho um filho e estou na luta para que eu, ele e até o filho dele tenham moradia, que é um direito nosso”, afirmou.

Verônica Fleres Alves dos Santos, 18, morava numa casa de apenas um cômodo com outras cinco pessoas no bairro São Pedro. “Vim para cá por estar precisando de uma moradia. Esse prédio está abandonado há 10 anos. Minha mãe permaneceu na casa de São Pedro. Eu estou aqui há um mês, com minha irmã e meu marido”.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *