Dia desses, jogando conversa fora, ouvi uma interessante frase de um conhecido: “nossas casas refletem o mundo no qual vivemos, e este aquelas”. Malgrado a frase pareça “filosofia de botequim”, fiquei a pensar nela durante longos instante – e cheguei a algumas conclusões.

         A primeira delas é que deveríamos contratar alguém para periodicamente pichar todas as paredes de nossas casas, a fim de que possamos limpá-las para que possam ser pichadas novamente. Gastaríamos algum dinheiro com isso, claro – só Vitória perde R$ 180 mil por ano na limpeza de pichações, e o Rio de Janeiro R$ 1,8 milhão. Mas o que é algum dinheiro diante do prazer de integrar sua casa ao mundo?

         Aproveite as pichações para quebrar alguns objetos de sua casa – inspire-se nos óculos da estátua do poeta Carlos Drummond de Andrade, que já chegaram a ser furtados e substituídos cinco vezes em um único ano, malgrado estar ela situada em movimentada avenida do Rio de Janeiro.

         Não se esqueça de arrebentar as lixeiras e bancos de sua casa, trocando-os em seguida. Instale também na sua sala um “orelhão”, só pelo prazer de quebrá-lo depois, para que possa ser substituído – acredite: só Uberlândia gasta, a cada ano, R$ 3 milhões na reposição destes importantes instrumentos.

         Pendure na parede da sala alguma placa de trânsito amassada e perfurada por buracos de bala, em homenagem aos R$ 600 mil que o Rio de Janeiro gasta para repará-las por suas rodovias afora.

         Enquanto me perdia nestas graves considerações, não faz muito tempo seis estudantes japonesas de uma escola da cidade de Gifu viajaram de férias para a Itália, acompanhadas por dois instrutores. Em Florença, enquanto visitavam a bela Catedral Santa Maria del Fiore, viram um pedaço de parede todo rabiscado – turistas de diversas partes do mundo ali tinham escrito à mão seus nomes. As seis jovens nipônicas deram, então, suas contribuições para o emporcalhamento daquela linda igreja, ali escrevendo seus nomes e o do colégio ao qual pertenciam.

         Passado algum tempo, um outro turista japonês, visitando a mesma catedral, notou os pequenos ideogramas japoneses no meio de tantos rabiscos. Decidiu fotografá-los. Voltando ao Japão, enviou para o colégio daquelas seis estudantes as imagens do que reputou um ato de vandalismo. Tive a oportunidade de acompanhar, através da leitura diária dos jornais “The Guardian”, do Reino Unido, “Japan Today” e Asahi, do Japão, o incrível desfecho deste episódio.

         Dois dos maiores jornais e uma rede de televisão daquele país exigiram a imediata identificação dos vândalos. Três alunas foram imediatamente identificadas e receberam dois meses de suspensão como penalidade. A direção do Colégio pediu desculpas à Administração da Catedral, e perguntou se poderia enviar as alunas a fim de que elas removessem seus nomes da parede – o que, polidamente, os italianos recusaram.

         Os três outros alunos, de uma escola de Kyoto, identificados logo a seguir, se viram frente a uma pena de expulsão. Em seguida, chegou-se a um dos professores que acompanhavam o grupo, o qual foi imediatamente suspenso de suas atividades e acabou frente a uma pena de demissão.

         Chamou-me a atenção, neste episódio, a posição clara e firme das autoridades, dos jornais e da população – repudiaram, sob o título de “vândalos”, aqueles alunos e professores, recriminando-os por terem ofendido seus hóspedes e arranhado a imagem do Japão no exterior.

         O Japão não é um país perfeito. Tem lá suas graves falhas por corrigir. Mas não se pode negar que, neste episódio, deixou uma bela lição. E talvez a partir dela esteja o início da explicação do porque de aquela terra tão pobre ser tão rica, e da nossa tão rica ser tão pobre!

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