Dia desses, contemplando um calendário, fiquei a pensar no ano que vem. Com toda a certeza trará ele coisas boas – e ruins também. Assim com as pessoas, com as cidades, com os países e com o próprio planeta. Mas fiquemos, hoje, apenas com uma cidade – Chicago, nos EUA.

         Com toda a certeza, no ano que vem alguns restaurantes daquela cidade violarão regras sanitárias, servindo aos clientes alimentos impróprios para consumo. Crianças serão contaminadas com o chumbo presente em tintas ou canos, e ficarão doentes. Pragas dos mais diversos tipos afetarão, aqui e ali, a qualidade de vida da população. Tudo isto, e muito mais, acontecerá naquela grande cidade, lar de 2,5 milhões de pessoas.

         Pense, agora, por um breve instante, como seria bom prever com razoável antecedência quando e onde cada problema acontecerá – eis aí o sonho de qualquer bom administrador. E sonho que começa a se transformar em realidade através do uso intenso e extenso da tecnologia.

         Tudo começou com a criação de um amplo banco de dados, contendo os resultados de inspeções, visitas técnicas, registros de manutenção, chamadas para a polícia e do próprio censo municipal. Inclua nisso imagens de câmeras de segurança, dados sobre meteorologia, consumo de água e energia etc. Não é pouca coisa: são cerca de sete milhões de novos registros a cada dia. Todas estas informações são, em seguida, cruzadas por um programa de computador, que indica automaticamente em quais locais dado problema deverá ocorrer.

         Acredito seja desnecessário dizer o quanto prevenir é muito mais fácil do que remediar, como reza a sabedoria popular. Bem resumiu este espírito um funcionário da cidade: “nós seremos capazes de prevenir problemas, ao invés de apenas respondermos a eles”.

         Um dos exemplos dados pela administração daquela cidade tocou-me de forma especial: a cada ano, 500 mil crianças norte-americanas ficam doentes por conta de contaminação por chumbo. Pois bem: o programa chega ao ponto de identificar em quais prédios este problema deverá se agravar, a fim de que medidas preventivas sejam adotadas.

         Vamos a outro exemplo prático: controle da população de roedores. A partir da análise de queixas sobre lixo e canos avariados, o sistema identifica os locais mais prováveis de proliferação de roedores, para lá enviando, com antecedência, equipes treinadas. O resultado: em um único ano, as queixas de moradores relativas a este tópico caíram nada menos que 15% – e considere que tudo ainda está em fase experimental.

         Aqui e ali, este tipo de iniciativa tem florescido ao longo dos últimos anos. A cidade de Nova York, por exemplo, implantou nos idos de 2011 um sistema para prever incêndios em prédios – com grande sucesso, evitando tragédias e otimizando o trabalho dos inspetores municipais. Há pouco tempo, também Dublin, na Irlanda, lançou um fascinante sistema de acompanhamento da gestão pública, passível de acesso em tempo real.

         São iniciativas maravilhosas, que começam a ser coroadas com o projeto desenvolvido em Chicago. De toda sorte, por curiosidade, decidi consultar o “site” da administração municipal – e confesso-me impressionado.

         De forma detalhada, lá estão até os locais de buracos nas ruas, apostos sobre o mapa da cidade, e quando foram tapados. Assim como os dos crimes acontecidos. Ou das inspeções em restaurantes. Ou dos veículos rebocados. Ou dos prédios abandonados.

         Aproveitei para consultar todos os dados relativos à qualidade e ao consumo da água oferecida para a população – e igualmente da energia. Analisei os indicadores de saúde relativos a cada bairro da cidade – incluindo a incidência de câncer de seio em mulheres, diabetes, partos prematuros etc.

         Vi, em seguida, absolutamente maravilhado, uma planilha na qual estão relacionados os crimes acontecidos na cidade – quais foram, onde ocorreram, quando e se resultaram em prisão. Consultei sobre o número de veículos multados e rebocados. E até vi, no mapa, quais os locais de maior congestionamento.

         Dir-se-ia que está aí um fruto da tecnologia. Pode ser. Porém, muito mais de mudança de mentalidade. De repúdio à cultura do “meu” – “meu setor”, “meus dados” etc. De apreço pela transparência. De sentido de continuidade administrativa.

         Dir-se-ia, finalmente, ser esta a vitória de um administrador. Nada mais falso – ele, sozinho, não conseguiria chegar tão longe. Eis aí, pois, antes de tudo, o espírito de todo um povo!

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