Dia desses li uma estatística segundo a qual, dos jornalistas vítimas de homicídio, 29% trabalhavam investigando casos de corrupção e 48% em editorias de política – contra, surpreendentemente, apenas 24% que cobriam guerras!
Aliás, se somarmos os profissionais encarregados da cobertura das áreas de negócios e direitos humanos que foram assassinados, chegaremos a 21% – só um pouco a menos dos que morreram em violentos campos de batalha! Realço que não estamos a falar de exceções – só em 2010 a cada três dias morreu algum profissional da imprensa a trabalho.
Cheguei a uma conclusão óbvia: é mais seguro para um jornalista estar no meio de uma guerra, ao som de tiros e bombas, do que escrevendo alguma matéria sobre, por exemplo, corrupção.
Minha convicção é reforçada pelo fato de que, quanto aos casos de homicídio intencional (excluídas, pois, mortes acidentais em conflitos armados), o índice de impunidade chega a 88% – o que só é possível sob a omissão clara e cúmplice do aparelho estatal. Tradução: 88% dos assassinos de jornalistas estão soltos, celebrando alegremente o temor que seus exemplos infundem aos que ainda vivos estão.
Decidi fazer uma varredura em meu “banco de dados”, buscando mais reportagens sobre a quantas anda a imprensa livre. Transcrevo, abaixo, algumas frases que encontrei publicadas pelo planeta afora.
Começo pela Austrália: “O Governo Federal enviou ao Parlamento proposta de legislação que inclui maior supervisão da imprensa escrita e eletrônica”. Prossigo para a Europa: “Em uma ação que deveria horrorizar  qualquer um que acredite na democracia, descobriu-se que a Comissão Europeia está injetando milhões de Euros em grupos dedicados a restringir a liberdade de imprensa”.
Não discrepa a Romênia: “O Senado aprovou uma emenda para a lei de transmissão, obrigando emissoras de televisão e rádio a  possuírem notícias positivas em pelo menos 50% de sua programação”. Segue-lhe a não tão distante Hungria: “Um órgão público de divulgação húngaro interrompeu sua programação em protesto contra uma nova e controversa legislação de controle da imprensa”.
Na Etiópia, noticiava-se que uma nova legislação “cria um conselho gerenciado pelo Estado para supervisionar a imprensa”. Nos EUA: “repórteres temem possíveis indiciamentos criminais por conta de informações que receberam” – a tão conhecida “censura judicial”. Do outro lado do oceano, no Reino Unido, não é menos sinistro o aviso: “Jornalistas podem ser processados por divulgarem o que é dito no Parlamento, segundo advertiu o Procurador-Geral”.
Aqui perto, no Equador, “foi aprovada a Lei de Comunicação, um projeto polêmico que cria organismos de controle da imprensa e impõe sanções a jornalistas e publicações”.
Notem que fugi a casos pessoais – apenas me ative ao genérico, à tendência indiscriminada. Se tivesse descido aos casos pessoais, necessitaria não de uma coluna, mas talvez de um livro para descrever o que encontrei.
Disto tudo resulta que apenas uma a cada sete pessoas no planeta tem acesso ao que poderíamos chamar de “imprensa livre”. Chamou-me a atenção uma declaração da pesquisadora que chegou a esta conclusão, Karin Karlekar: “as tendências gerais são decididamente negativas”.
Há algumas décadas Albert Camus, sensatamente, nos advertiu de que “a liberdade de imprensa é talvez a liberdade que mais tem sofrido pela degradação da ideia de liberdade”. Fico a meditar se, contemplando as cenas pavorosas de tantos miseráveis sofrendo por conta da pura ganância de tão poucos, e escutando os gemidos dos que sofrem, na imprensa ou fora dela, por simplesmente terem dito a verdade, deveríamos recordar, com Hemingway, que os sinos dobram por nós.

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