O novo espetáculo do Grupo Z de Teatro, “Resto”, chega a sua segunda semana de temporada de estreia, na Casa da Má Companhia, no Centro de Vitória. Com um forte tom político, a peça dialoga intimamente com recentes acontecimentos da vida nacional, questionando, principalmente, o processo de judicialização pelo qual passa o país e que repercute em diversas áreas da vida. As apresentações acontecem na sexta-feira (12), sábado (13) e domingo (14). A peça permanecerá em temporada de sexta a domingo durante o mês de outubro.

Com direção de Fernando Marques e Carla van den Bergen, “Resto” sublinha o crescente movimento de intervenção, por parte do judiciário, na resolução de praticamente todas as questões fortemente discutidas. “O conceito de judicialização tem a ver com assuntos e questões que eram resolvidas em outras instâncias, como pelo Executivo ou pelo Legislativo, e que passam a ser resolvidas pelo Judiciário, além do peso que o Judiciário vai ganhando na vida da gente. Todo mundo se arvora ao papel de juiz, então a gente se vê capaz de condenar ou absolver pessoas nesse ambiente de polarização”, explica Fernando.

Dramaturgicamente, a peça passeia por clássicos do teatro, como “Antígona”, de Sófocles, e “O Juiz de Paz na Roça”, de Martins Pena, ao mesmo tempo em que aborda episódios recentes, como a greve dos caminhoneiros, os 23 manifestantes condenados e a interdição de trabalhos artísticos, utilizando a fragmentação e conferindo um estilo de rapsódia ao espetáculo.

A multiplicidade de referências que aparecem no texto, assinado por Fernando Marques, também ressoa na construção de uma mistura de linguagens para a peça. Os personagens transitam pela Tragédia Grega e chegam a figuras cômicas caricatas, a exemplo de personagens de juízes construídos a partir da máscara do Doutor, da Commedia Dell’Arte, tecendo uma estética tão plural quanto os casos que traduzem a temática abordada.

O humor e a ironia aparecem em boa parte dos quadros, características que não estiveram tão presentes nos últimos trabalhos do grupo. “É tudo tão patético sobre o que estamos falando, que parece que não restou outro caminho; o humor, como linguagem, é quase uma questão de sobrevivência nesses tempos atuais”, acrescenta Carla van den Bergen.

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