depoisDesde o faraó Akhenaton, esposo de Nefertite (1370 a.C.), que foi o primeiro soberano a promover uma religião monoteísta e universal e cuja passagem pela terra os sacerdotes egípcios (politeístas) tentaram apagar, destruindo seus monumentos e eliminando referências, verificamos que todo renovador corre risco, ainda que esteja em posição elevada.

Em Belo Horizonte, 1937, o jornal Estado de Minas, em texto sobre a exposição de Homero Massena que acontecia na Biblioteca Pública Estadual, se referiu assim a um grupo de artistas do qual Massena fazia parte: “… parece que o povo passou a acreditar nas intenções desses renovadores, sem dúvida, muito mais enérgicas e mais louváveis do que as daqueles conservadores de nulidades e eternos cultores de elogios mútuos”. Massena havia chegado da Europa onde frequentou artistas impressionistas, desenvolvendo, como antropofágico, uma adequação, aclimatação perfeita, da técnica alienígena ao ambiente nacional.

O povo e a elite mineira prestigiaram a exposição de Massena, segundo mostram alguns recortes de jornais da época. O governador Milton Campos, o secretário de cultura Abgar Renaut, o prefeito Negrão de Lima e o Arcebispo de Belo Horizonte adquiriram pinturas… Mas havia o meio de campo formado por artistas funcionários (estabilizados e ciumentos, tipo Salieri/Mozart), jornalistas tendenciosos e o mercado administrado. Topadas desanimadoras aconteceram, e ele partiu.

Massena sempre despertou interesse social, e a utilidade pública do seu trabalho foi reconhecida pelo poder (obteve, por mérito, pensão vitalícia de três salários mínimos do Governo Federal). Entretanto seu espírito renovador, que o movia para além da indiferença, para a diferenciação, o fazia chocar-se com muretas alicerçadas no conservadorismo e na mesquinharia.

Massena era corajoso e romântico. Foi “Oficial de Ligação dos Generais Euclides de Figueiredo, e Palmério, na revolução de 1932, São Paulo. Em Campos, RJ, vinte anos antes, publicara um anúncio convocando um desafeto para duelo com armas. De BH, após “dar combate enérgico às velharias e aos medalhões”, vencido e escaldado, saiu polidamente, foi percorrer o Brasil de norte a sul. Morando, pintando, expondo suas telas do Recife até Porto Alegre, nunca possuiu uma casa. Viveu por mais tempo em casa alugada na Prainha, Vila Velha (1951 – 1974), hoje, Museu Atelier Homero Massena.

Fico muito confuso quando observo que mudanças profundas na economia, interferindo violentamente em nossas vidas, são assimiladas com tranquilidade. Entretanto a área cultural, infestada de parasitas e submissa ao paternalismo do governo, permanece imutável. Insistem em violentar a cultura, concorrendo com o povo na criação de projetos, em vez de estabelecerem parcerias legítimas. Privilegiam empresas com leis absurdas de incentivo à cultura e se descuidam da obrigação constitucional de promoção da arte local e da preservação da memória e do patrimônio cultural do povo (Art. 215 e 216).

Nossos governos promovem a diluição cultural, quando sabemos que cultura é diferenciação. O tradicional provincianismo, com olhos só para longe, é deficiente na percepção local e oferece poucas esperanças à nossa produção. Promove o exótico em detrimento do desenvolvimento local: na música, literatura, dança, artes plásticas…

Nossos galeristas e artistas, guiados por curadores exóticos e equivocados, estão mais preocupados em macaquear novidades, em conservar nulidades e em trocar elogios; em usufruir o cartório em que se transformou o sindicato; em submeter-se; em fazer alarde da participação em salões classificatórios e em pagar pedágio para expor em espaços públicos. Nossa pobre educação artística carece de um Museu didático, com coleção permanente: no escuro confundimos gatos com lagartos e publicidade com arte.

Aristocratas italianos, temendo o ímpeto do renovador Garibaldi na Itália do século XIX, diziam: “É preciso mudar para continuar o mesmo.” A cultura vive mudando e carece de renovação.

Kleber Galvêas, pintor.

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