Era o dia 22 de outubro de 1920. E lá estavam, nas páginas do jornal britânico “Sunday Times”, as declarações do Coronel T. Lawrence acerca da situação no atual Iraque: “Os comunicados de Bagdá faltam com a sinceridade. A realidade é pior do que aquela que nos tem sido dita. Cidades inteiras foram arrasadas pela aviação inglesa. Em quatro meses, dez mil pessoas morreram. Os blindados forçavam as populações em pânico rumo a campo aberto, onde poderiam exterminá-las melhor”.

         Quase um século depois, leio, através da pena do jornalista Larry Everest, novas notícias sobre aquela região: “Os EUA usaram bombas de fragmentação, fósforo branco e urânio empobrecido contra o povo iraquiano, todas elas consideradas armas de destruição em massa, suspeitas de induzirem câncer e deformações em fetos. Presencia-se uma taxa de deformações congênitas na cidade de Fallujah que supera até as verificadas nas cidades de Hiroshima e Nagasaki em seguida aos bombardeios nucleares”.

         Seriam tais absurdos verdadeiros? Não sei. Só sei que, distante do ruído das bombas, segue firme o cortejo silencioso dos navios petroleiros, carregando para o Ocidente um certo “ouro negro”, que nos custa menos que água mineral.

         Ali perto, na África Central, um mineral chamado “coltan” está na origem de um dos mais sangrentos conflitos do planeta, que já deixou, segundo a ONU, cinco milhões de mortos. Uma investigação identificou 157 empresas de diversos países envolvidas na extração ilegal deste minério e calculou o custo de um telefone celular produzido com o mesmo: a vida de duas crianças. Fico a pensar no preço de um computador ou de uma turbina de avião.

         Não nos esqueçamos das denúncias de que empresas ocidentais estão testando vacinas em crianças pobres do sudeste asiático, matando inúmeras delas. Ou dos relatos de que governos, aqui e ali, são desestabilizados e substituídos por outros mais “simpáticos” a certos interesses comerciais e aos “governos paralelos”, ao custo da felicidade de populações inteiras.

         Um subproduto destas políticas é a migração dos miseráveis, alguns dos quais sobrevivem ao suplício dos navios negreiros e acabam não raramente explorados ou escravizados – aliás, nunca nosso planeta teve tantos escravos como em nossos dias!

         Quantas verdades incômodas surgem de contextos que tais! Verdades que, se divulgadas amplamente, talvez conduzissem a humanidade a uma paz outra que aquela dos cemitérios. É quando entram em cena os abafadores, tudo sufocando através de instrumentos econômicos, legais ou mesmo físicos, conforme a disposição dos suseranos locais.

         Não causa surpresa, pois, que em 2010, a cada três dias, um profissional da imprensa tenha sido assassinado. Em 90% dos casos, registro, reina a mais plácida impunidade. Quais verdades terríveis eles buscavam nos mostrar?

         São filhos deste quadro, de contornos ainda nebulosos, o extremismo, o barbarismo, a intolerância e a discriminação. Se é certo que o mal não lhes justifica a existência, e fique isto muito claro, não menos certo é que ajuda a explicá-las e dá até o caminho para combatê-las.

         É quando chego aos jornalistas cruelmente executados pelo planeta afora. Lanço um primeiro olhar, e vejo a verdade clara de que tombaram vítimas do fanatismo religioso e do barbarismo puro e simples. Esta a causa imediata. Porém, um segundo olhar nos revela fatores outros, mediatos, convidando-nos a uma serena e profunda reflexão sobre as bases de nossa civilização. A ouvir, enfim, os sinos dobrando – pelos assassinados, pelos inocentes, pela imprensa, pela decência, pela democracia, pelos direitos civis, pelas instituições e pela liberdade. E, com o poeta John Donne, por cada um de nós.

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