Dia desses, aqui em Vitória, percorrendo a Avenida Jerônimo Monteiro em um final de tarde, fiquei a pensar em uma frase de Brecht: “estranhem o que não for estranho, tomem por inexplicável o habitual e sintam-se perplexos ante o cotidiano”.

         Aparentemente, nada havia de estranho no cenário: ônibus e carros passavam em velocidade considerável a poucos centímetros da multidão de pedestres, o barulho era ensurdecedor e a fumaça entrava sem a menor cerimônia no pulmão de todos que ali estavam. Era, enfim, um final de tarde típico de qualquer grande cidade africana ou latino-americana.

         Decidi, porém, parar um pouco para “estranhar o que não era estranho”. Foi quando reparei no silêncio das pessoas! Apesar de ali estarem milhares de seres humanos, pouquíssimos conversavam, pois que suas vozes seriam abafadas pelas dos veículos.

         Recordei-me de um sério estudo, realizado no Reino Unido, sobre nada menos que 8,6 milhões de pessoas ao longo de sete anos, segundo o qual quem convive com altos níveis de poluição sonora tem probabilidades 4% maiores de morrer prematuramente e 5% maiores de ser vítima de derrame – 9%, caso seja idoso. Um outro estudo, este sueco, ao estudar 5.075 habitantes de Estocolmo, logrou relacionar altos índices de poluição sonora a diabetes, hipertensão e obesidade.

         Subitamente, o silêncio de todas aquelas pessoas, repetido ao longo de incontáveis horas, dias e anos, tomou a forma de um grito – afinal, que há de normal em um quadro desses?

         Lancei meus olhos sobre a fumaça branca que saía dos escapamentos dos veículos, declarando guerra aos nossos organismos – e guerra da qual sairá vencedora, pois que, conforme constatado por pesquisadores norte-americanos, pessoas sujeitas a altos níveis de poluição do ar vivem em média 3,2 anos a menos.

         Um outro estudo norte-americano, realizado sobre 107.130 mulheres, constatou que aquelas submetidas a índices elevados de poluição atmosférica seriam 38% mais propensas a contrair doenças cardíacas. E, finalmente, um da própria Organização Mundial de Saúde (OMS) revelou que a poluição mata mais que os acidentes de trânsito.

         Olhei novamente para aquelas pessoas, a maioria das quais exposta a cenário tão sinistro ao longo de todo o dia, e ocorreu-me que a umidade em seus olhos, malgrado fruto da poluição, refletia também uma lágrima pelo abandono em que se encontram – ao fim do cabo, é realmente inacreditável um quadro desses em contraste com a maravilhosa tecnologia disponível em pleno século XXI!

         Uma vez mais, contemplei aquela cena cotidiana, para perceber o quão pouco vale uma vida humana! Lá estavam veículos imensos passando, alguns em alta velocidade, literalmente ao alcance das mãos de idosos e de crianças, comprimidos pela calçada afora. Tomou ares de tragédia anunciada a possibilidade de um daqueles gigantes de aço perder o controle e avançar sobre a multidão.

         Recordei-me de um estudo brasileiro, indicando que 39% dos acidentes fatais no trânsito são decorrentes de atropelamento. E subitamente percebi que estava ali, em cena tão banal, o absurdo de se contrariar a lógica mais evidente.

         Voltei aos meus tempos de criança, para perceber que nada mudou naquele lugar – e em tantos outros – ao longo de décadas. Por que será? Diriam alguns que o motivo está no alto custo da moderna tecnologia.

         Seria verdade? Não: recente pesquisa da USP provou que são gastos R$ 14 por segundo para tratar sequelas respiratórias e cardiovasculares de vítimas da poluição do ar – e só ela, sem contar atropelamentos e poluição sonora. Ou seja, seria infinitamente mais humano e barato – somente para uma esmagadora maioria, porém – prevenir do que remediar. Que tal meditarmos sobre isso?

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