Paiva Netto

José de Paiva Netto, escritor, jornalista, radialista, compositor e poeta, nasceu em 2 de março de 1941, no Rio de Janeiro/RJ, Brasil. É diretor-presidente da Legião da Boa Vontade (LBV), membro efetivo da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), da Associação Brasileira de Imprensa Internacional (ABI-Inter). Filiado à Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), à International Federation of Journalists (IFJ), ao Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Rio de Janeiro, ao Sindicato dos Escritores do Rio de Janeiro, ao Sindicato dos Radialistas do Rio de Janeiro e da União Brasileira de Compositores (UBC). Integra também a Academia de Letras do Brasil Central.

Dia desses, lendo sobre o terrível conflito da Faixa de Gaza, decidi lançar mão de uma calculadora de bolso, dessas que se compra até em camelô, para efetuar alguns cálculos. Os resultados bem que poderiam ensejar uma ampla reflexão sobre nosso papel nesta vida.
Comecei por uma notícia dando conta de que, ao longo de 18 dias de violentos combates, morreram 192 crianças. Isso dá uma média de 10,6 crianças mortas por dia. Enquanto isso, no pacífico país que habitamos, a cada dia 20 crianças perdem a vida em função de doenças causadas pela falta de saneamento básico – isto acontece há décadas, sob nosso silêncio.
É mesmo difícil de entender: uma realidade histórica tão pungente, superior a governos, praticamente não é discutida entre nós. Seria a dor de nossas crianças e de suas famílias inferior à dos habitantes da Faixa de Gaza?
O conflito da Faixa de Gaza não foi a única tragédia noticiada naqueles dias. Houve também a queda de um Boeing 777 da Malaysia Airlines, que causou a morte de 298 semelhantes nossos. No mesmo mês, outro avião da Air Algérie, um MD-83, acidentou-se na África, vitimando outras 116 pessoas.
Diante da comoção mundial e nacional causada por tantos óbitos em um único mês, dando margem a reportagens diversas sobre os riscos da aviação, decidi voltar à calculadora. Cheguei à conclusão de que naquele mês 414 pessoas perderam a vida em acidentes aéreos – e todos falaram sobre isso.
Enquanto isso, naquele mesmo mês, 600 crianças morreram silenciosamente pelas nossas favelas e cortiços – o equivalente a uns dois Boeings 777 lotados. E ninguém falou nisso – em um silêncio tão mais chocante quando recordamos que estas duas “aeronaves lotadas” caem há décadas, todos os meses, aqui no Brasil, matando todos os seus passageiros. Seria a dor de nossas crianças e de suas famílias inferior à dos passageiros de aviões?
Decidi fazer mais algumas contas. Naquele mês, julho de 2014, 864 pessoas morreram no conflito árabe-israelense. Somei-as com as vítimas de acidentes aéreos. Deu um total de 1.278 seres humanos. Pois bem: segundo cálculos da ONU, a cada cinco segundos morre uma criança de fome por este planeta. Aliás, faça uma experiência, e conte até cinco: um, dois, três, quatro, cinco – morreu outra.
Uma criança a cada cinco segundos são 12 por minuto. Ou 720 por hora. Ou 17.280 por dia. Ou 518.400 por mês. E poucos comentam esta realidade, igualmente histórica, que envergonha nossa raça. É mesmo intrigante: ao longo de um mês todos se comoveram – justificadamente, diga-se de passagem – com a perda de 1.278 semelhantes nossos, mas quase ninguém lembrou as 518.400 crianças que morreram de fome no mesmo período, repetindo a tragédia dos anteriores.
Diante destes dados, seria muito fácil simplesmente perguntar onde fica, afinal, a Faixa de Gaza – tão fácil quanto inútil. Creio ser mais produtivo indagar por quais motivos, enfim, tantos falam da morte de tão poucos e tão poucos falam da morte de tantos!
O primeiro impulso seria apontar o dedo para a imprensa, que bem poderia dar às tragédias diárias o espaço concedido às periódicas. Porém, suspeito eu, não está nela a maior parcela de culpa – afinal, quem compraria um jornal que, cotidianamente, estampasse em suas páginas frases do tipo “Hoje morreram mais 20 crianças”?
Será como descobriremos, com Heinemann, que “quem aponta para o outro com o indicador aponta a si mesmo com três dedos de sua mão”. Aí constataremos, com o rabino Heschel, que “em uma sociedade democrática alguns podem ser culpados, mas todos são responsáveis”. E recordaremos, então, Martin Luther King: “nossa vida começa a acabar quando nos calamos frente às coisas que realmente importam”.

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