Dia desses, contemplando algumas cenas que integram o cotidiano dos brasileiros, fiquei a recordar um interessante pensamento de Murphy: “o homem que consegue sorrir quando as coisas vão mal lembrou-se de alguém em quem pôr a culpa”.
         Historicamente, no nosso país o culpado eternamente de plantão chama-se “dinheiro”, mais precisamente a falta dele. Da saúde à educação, dos transportes à energia, a responsável sempre foi, é, e suspeito que será, a falta de recursos.
         Como esta senhora, a “falta de dinheiro”, não concede entrevistas e nem tem como defender-se, as gerações vão se sucedendo e, salvo os costumeiros aumentos de impostos, nada acontece – as pessoas, iludidas e atordoadas pelas asperezas da vida, não percebem que os principais culpados são outros, mais próximos de nós do que poderíamos imaginar.
         Há algum tempo, por exemplo, o presidente do Tribunal de Contas da União foi a público declarar que “os nossos aeroportos continuam com banheiros fedorentos”. Seria a falta de dinheiro a causar este histórico desconforto a tantos brasileiros? Será que neste país não temos recursos para a limpeza de banheiros de aeroportos?
         Falando no assunto, já começa a virar rotina em nossas ruas um hábito antes exclusivo dos caninos, qual o de urinar em postes e muros – afinal, nosso país não oferece aos seus filhos banheiros públicos. Seria a falta de dinheiro? Será que uma das maiores economias do mundo não tem recursos para construir banheiros para seus filhos?
         Perceba também o quão esburacadas são nossas ruas e calçadas – mais parecem saídas de um bombardeio inimigo. Conheço diversos casos de idosos que morreram por conta de quedas em calçadas, e de motoristas que se acidentaram por conta de buracos em avenidas e rodovias. Pois é: a culpa seria da falta de dinheiro? Será que um dos mais ricos países do planeta não tem recursos sequer para tapar decentemente os buracos de suas vias?
         E que dizer da burocracia inclemente, que tortura nosso povo e nossa economia? Que dizer, por exemplo, dos “comprovantes de residência”, contas emitidas por empresas particulares que “atestam” para a Administração Pública onde supostamente residimos? Seria este absurdo, assim como tantos outros, fruto da falta de dinheiro? Será que um dos povos reconhecidamente mais criativos do planeta não tem recursos para vencer uma prosaica guerra contra os carimbos, comprovantes, atestados e certidões?
         Encerro esta relação com o tenebroso exemplo das obras inacabadas, aquelas que começaram porque havia recursos disponíveis e foram abandonadas por conta da pura e simples mudança de administração – e isto é quase que uma rotina em todas as camadas de todos os Poderes. Não faz muito tempo o Tribunal de Contas da União identificou 400 destas obras, paralisadas após terem consumido nada menos que R$ 2 bilhões em recursos públicos. Evidentemente, também aqui, por motivos óbvios, não se pode culpar a “falta de dinheiro”.
         Todos os problemas acima listados induzem prejuízos para a economia do nosso país, e bem assim para nossas vidas. Não há brasileiro que não sofra com a perda de dignidade que um ambiente ilógico, fruto de deficiências gerenciais históricas, acarreta.
         Notem, finalmente, que não abordamos temas mais “cabeludos”, tais como as deficiências no sistema de saneamento básico, de energia, de transportes, de saúde, de segurança pública etc. – focamos apenas em casos singelos e básicos demais, daqueles cujos culpados não possam apontar o dedo para a “falta de dinheiro”.
         É quando fico a pensar se não deveríamos observar com maior atenção as palavras de Roberto Campos, segundo quem “o mundo será salvo muito mais pela eficiência do que pela caridade”.

Cometários

  1. Se a vida se tornar uma barra, coloque as anilhas, apoie nas costas e agacha.

    A vida é curta. Quebre as regras, perdoe rapidamente, beba lentamente, ame verdadeiramente, ria incontrolavelmente e nunca se arrependa de nada que te faça sorrir!

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