Conta-se que na Grécia antiga reuniram-se os sábios buscando salvar a República, que ameaçava ruína. Demóstenes, então, levou às mãos uma fruta apodrecida, lançando-a ao chão e exclamando: “É verdade! Nossa República está apodrecida como este fruto! Mas vejam que, do meio da matéria apodrecida, surgem as sementes – porções de vida nova e de esperança. Estas sementes é que deverão merecer nosso especial cuidado”.

Fiquei a pensar neste episódio ao ler que o governo da China decidiu verificar 104 fábricas de brinquedos, em seis diferentes províncias, constatando que 23% do que produziam estavam em desacordo com os padrões de segurança exigidos.

Só para exemplo, foram encontrados no forro de bonecos algodão sujo, lixo industrial e até restos de pacotes de macarrão. Como cerca de 70% dos brinquedos comercializados no mundo são chineses, será que nossas crianças estão sendo afetadas?

Um outro inquérito, levado a efeito pela organização Greenpeace, encontrou produtos tóxicos em 21 dos 30 brinquedos chineses adquiridos em quatro cidades daquele país. Dentre as toxinas estava uma, destinada a amaciar plástico, causadora de alterações hormonais e disfunções do aparelho reprodutor.

Nos Estados Unidos, um a cada três brinquedos testados – cerca de 1,5 mil – por uma instituição de Michigan apresentou níveis médios ou elevados de produtos químicos comprovadamente tóxicos.

Na Europa, há algum tempo, as autoridades sanitárias recolheram brinquedos de espuma por apresentarem níveis perigosos de substâncias causadoras de câncer. Na Índia constatou-se que todos – absolutamente todos – os brinquedos recolhidos para exame continham substâncias altamente tóxicas.

A propósito, recente investigação comprovou que algumas substâncias comprovadamente tóxicas estavam presentes – em brinquedos produzidos na China – sob níveis de concentração 300 vezes superiores aos máximos permitidos nos EUA e Europa.

Na Nova Zelândia instalou-se uma Comissão de Inquérito para apurar o escândalo dos brinquedos com níveis de chumbo 314 vezes superiores ao máximo permitido – e que estavam sendo vendidos livremente pelas lojas do país. Em Taiwan, órgãos de proteção ao consumidor encontraram em alguns brinquedos toxinas em níveis 100 vezes superiores aos máximos permitidos.

Na Arábia Saudita, recente investigação chegou à inacreditável conclusão de que 10% das roupas importadas continham substâncias comprovadamente causadoras de câncer. No Irã, 80% dos brinquedos lá fabricados e 70% dos importados não cumprem requisitos básicos de segurança.

Complementarmente, nos últimos anos o número de crianças afetadas por distúrbios comportamentais tem subido sensivelmente. Atentos a este fenômeno, cientistas da Escola de Saúde Pública de Harvard (EUA) identificaram cinco produtos químicos industriais causadores de danos cerebrais aos quais as crianças tem sido expostas por conta da alimentação, vestuário e manuseio de brinquedos.

         Um dos pesquisadores foi enfático ao declarar que “enquanto não existir um requisito legal para que os fabricantes provem que todos os químicos industriais existentes e todos os novos químicos não são tóxicos antes de entrarem no mercado, enfrentaremos uma pandemia de toxicidade para o desenvolvimento neurológico”.

Constatou-se, finalmente, que “as perturbações do desenvolvimento neurológico, como o autismo, o défice de atenção, a dislexia ou a paralisia cerebral afetam uma em cada seis crianças em todo o mundo, havendo cada vez mais provas que ligam a exposição a químicos na infância a níveis mais altos destas doenças”.

Diante desta séria realidade, que obviamente é a de nossas ruas, seguramente cada um de nós tem algo a fazer. Mãos à obra, pois!

Cometários

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