O editor, tradutor, ensaísta e crítico de teatro Jacó Guinsburg morreu na tarde desse domingo, 21, em São Paulo, vítima de insuficiência renal.

Jacó, que estava internado no hospital Albert Einstein, veio para o Brasil aos três anos de idade, em 1924, vindo da cidade de Rîscani, na Bessarábia, região que atualmente fica entre a Ucrânia e a Moldávia, na Europa. O intelectual escreveu sobre literatura judaica no jornal O Estado de S. Paulo e começou sua atividade editorial já na década de 1940.

Em 1965, após uma temporada na França, onde cursou filosofia em Sorbonne, Guinsburg fundou a editora Perspectiva, da qual era diretor-presidente até sua morte.
A Perspectiva se tornou, em mais de 50 anos, uma das casas editoriais de referência para a publicação de crítica literária, teatral e ensaios em geral.

Guinsburg foi editor de autores brasileiros como Antonio José Saraiva, Anatol Rosenfeld, os irmãos Augusto e Haroldo de Campos, e Décio de Almeida Prado; além de nomes de peso estrangeiros como Umberto Eco, Roman Jakobson, Tzvetan Todorov e Fernand Braudel.
Nos anos 1980, Guinsburg publicou teses sobre teatro e, em 2000, explorou a própria faceta de escritor e publicou O Que Aconteceu, Aconteceu, livro de contos com memórias e sátiras sobre a cultura judaica, e, este ano, Jogo de Palavras, que reuniu seus poemas, ambos pela Ateliê Editorial.

A última entrevista que Guinsburg concedeu à imprensa foi publicada pelo jornal Cândido, da Biblioteca Pública do Paraná, na série Os Editores. A conversa com o escritor Ronaldo Bressane revelou que o maior livro que ele editou foi O Judeu da Babilônia, de Issac Bashevis Singer, em 1948, ainda na editora Rampa. “Ele era absolutamente desconhecido”, afirmou o editor na ocasião.

Repercussão. Bressane relembra a entrevista: “O Jacó me deu uma entrevista de duas horas. Parecia frágil, mas demonstrava muita vontade de conversar”, disse ao Estado. “Ele falava sem parar, uma conversa em vaivém cheia de digressões pela história, filosofia, literatura e teatro, sempre desviando para um paradoxo ou uma piada autodepreciativa, bem judaica. Fiquei particularmente impressionado quando, ao pedir pra ele analisar o momento político atual, Jacó, que viveu duas guerras mundiais, disse: Sinto cheiro de 1938”, relembra o escritor. “A Gita, mulher dele, estava junto, e ele sempre se referia a ela com admiração, dizendo que a Perspectiva só estava de pé porque a mulher do editor é matemática.”

O escritor, crítico e ensaísta Braulio Tavares lamentou a perda para a literatura brasileira: “Não o conheci pessoalmente, mas como todo leitor de teoria literária e de ciências sociais tenho uma enorme dívida com a editora dele”, disse o autor.
“Para nós, das ciências humanas, o catálogo da Perspectiva é de valor inestimável. Guinsburg marcou nossa vida intelectual de forma decisiva”, lamentou o jornalista e tradutor Irineu Franco Perpétuo. “O estudo da literatura russa deve-lhe muito pelas traduções de Maiakovski dos irmãos Campos com Boris Schnaiderman, que estabeleceram um paradigma de excelência inigualável. Na música de concerto, a Perspectiva também lançou títulos indispensáveis na estante ou na bibliografia de qualquer estudioso ou interessado. Por fim, gostaria de ressaltar os trabalhos do próprio Guinsburg, como o sensacional Büchner: na pena e na cena, volume com a obra teatral, literária e correspondências do dramaturgo alemão do século 19”, acrescentou Perpétuo.

André Cáceres
Estadao Conteudo
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