Roberta D'Albuquerque

Roberta D'Albuquerque é psicanalista, autora de Quem manda aqui sou eu - Verdades inconfessàveis sobre a maternidade. Criou o portal A Verdade é Que... Existem mil maneiras de maternar. E escreve semanalmente sobre família e infância para vários jornais do Brasil.

Dez minutos esperando minha filha no portão da escola. As vozes das crianças que acabam de sair da aula de canto aquecem a noite chuvosa de São Paulo, elas descem a rampinha vermelha carregando na mochila o cansaço do dia. Já são quase nove da noite. Lara é uma das últimas a cruzar o portão, engatou uma conversa que de onde a observo parece interessante o suficiente para lhe fazer ignorar minha presença. Passa direto, beija e abraça a amiga despedindo-se, e já na rua olha para trás. “Vem mãe!”.

Alguns metros de silêncio depois, ela segura a minha mão e segue o monólogo sobre o coral, o lanche, o trabalho de inglês, os amigos. “Cantamos aquela música que você gosta”. “A fila hoje estava gigantesca”. “Parece que não fui tão bem”. “Fulano isso, fulana aquilo”.

Fiquei enternecida. Desde que tinha uns 10 anos não é afeita a mãos dadas. Nunca chegou a verbalizar, mas se eu me distraio e a seguro, ela arranja algum cabelo para ser posto atrás da orelha, alguma coceirinha no rosto ou qualquer coisa que valha para livra-se do entrelaçar de dedos.

Até que assim, numa noite de coral, 12 anos recém-completados como se nada fosse… Penso que o crescimento é feito dessas pequenas idas e vindas. Saber que posso ir para só então querer voltar. E quão significativo é o gesto das mãos dadas. Um abraço em miniatura.

Um quilômetro separa a escola de nossa casa. Duas quadras, um shopping atravessado no meio do caminho, mais três quadras. Foi só o tempo de contar as novidades e o aconchego já era o suficiente para a minha menina. Passada a primeira vitrine do shopping, já soltou a mão, mexeu no cabelo. De lá até em casa reassumiu a postura adolescente, aquela que guarda uma certa distância de qualquer pessoa que já tenha passado dos 18.

Segui observando-a até o elevador de nosso prédio (como está grande a minha filha), quando ela apertou minha bochecha e disse estar morta de fome. Entrou e seguiu direto para quarto, celular na mão.

“Mãe, tu faz um ovinho pra mim?”
“Eu não, o jantar já está pronto”
“Por favor, te dou um abraço”

Faço, claro que faço. E sim, sigo aqui, mãos disponíveis sempre que você procurar.

A imagem que ilustra este texto é de Janice Sztabnik

 

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