Era uma vez um país muito rico – para falar a verdade, um dos mais ricos do mundo. Naquele país, seus filhos negociavam entre si o leite de suas vacas, a água de suas nascentes, a energia de suas cachoeiras, o café de suas plantações, o petróleo de seu subsolo e até, acreditem, os frutos de seu trabalho.

         Aquele não era, em absoluto, um país xenófobo, isolado ou avesso à comunidade internacional. Muito pelo contrário. Admitia, em sua economia, centenas, talvez milhares, de empresas transnacionais – porém reservando para si aquela parte que simboliza uma linha além da qual descortina-se a descaracterização de um país.

         Eis que, em dado momento de sua história, surgiu por lá uma certa “globalização”, definida como “um processo econômico e social que estabelece uma integração entre os países e as pessoas do mundo todo”. Li, em uma enciclopédia, que “através deste processo, as pessoas, os governos e as empresas trocam idéias, realizam transações financeiras e comerciais e espalham aspectos culturais pelos quatro cantos do planeta”.

         Atraído pelo “canto da sereia” de princípios tão belos, aquele país abriu-se para o mundo. Da agricultura à energia, das comunicações ao petróleo, dos transportes à água, da mineração à indústria, muito do que tinha de melhor acabou nas mãos de povos outros.

         Foi assim que naquele país estrangeiros passaram a responder por 70% das exportações de soja, 15% das de laranja, 13% de frango, 6,5% de açúcar e álcool e 30% das de café. Só isso já passou a sangrar aquele país em mais de US$ 12 bilhões a cada ano apenas a título de remessa de lucros.

         Vamos a outro exemplo simples: em 1990, das dez maiores empresas do setor de alimentos, seis eram nacionais e quatro estrangeiras. Cinco anos mais tarde, a relação era de 50% – e em 1999 já havia se invertido: sete contra três – sete estrangeiras contra apenas três nacionais!

         Naquele país, por conta das promessas de que o mundo se transformara em uma “aldeia global”, 60% das empresas negociadas tem ido parar nas mãos de grupos estrangeiros – assim como os direitos de exploração sobre considerável parte de suas principais riquezas, a maior parte delas não-renováveis.

         No que se transformou aquele país? A verdade pode ser bem resumida através do Banco Central Europeu, segundo o qual o resultado negativo no comércio exterior, somado ao fluxo das operações financeiras, dá ao Brasil o título de segunda maior fonte de recursos para os europeus nas transações da Europa com parceiros de fora do continente.

         Recente relatório divulgado por aquele órgão mostrou um saldo positivo para os europeus de 23,6 bilhões de Euros entre o segundo trimestre de 2013 e o primeiro trimestre de 2014. Esta cifra representa o montante que deixou o Brasil rumo à Europa para pagar importações e quitar a contratação de serviços, além de transferências em investimentos e remessas de lucros.

         Agora vá ao aeroporto mais próximo, embarque em algum avião e saia por esta “aldeia global” à cata de algum país – um só deles basta – que tenha entregue a brasileiros tantas parcelas tão relevantes de sua economia, em reverência ao bom e velho “princípio da reciprocidade”. Se encontrar algum, só um, um único que seja, uma única exceção, por favor me avise!

         Enquanto isso, dizem alguns que a expressão “para inglês ver” surgiu nos idos de 1830, quando a Inglaterra exigiu que o Brasil aprovasse leis que impedissem o tráfico de escravos. Todos sabiam, porém, que tais leis jamais seriam cumpridas – logo, eram criadas apenas “para inglês ver”. Pois é: quem diria que, menos de dois séculos depois, estaria o nosso tão rico país entregando-se de corpo e alma a uma globalização “para brasileiro ver”?

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