morteSe o ano de 2017 tivesse que ser resumido em poucas palavras, estas seriam “insegurança e medo”. Se para o cidadão comum foi, imagina para os membros da segurança pública. Policiais – civis, militares, rodoviários e federais – vivem na mira de armas e perigo e muitos não conseguem lidar com isso. Só neste ano cinco suicídios aconteceram, segundo registrado pela Associação de Cabos e Soldados da Polícia Militar e Bombeiro Militar do Espírito Santo (ACS/ES).

O presidente da entidade, sargento Renato Martins, afirma que as ocorrências aconteceram a partir de fevereiro, quando houve um movimento que paralisou por mais de 20 dias as atividades nos batalhões da PM pelo Espírito Santo. Segundo depoimento de policiais, que não quiseram se identificar por receio de problemas na corporação, essa foi uma das consequências do pós-crise.

O último caso foi o do soldado Bonomo, que atentou contra a própria vida no dia 1º de novembro com a arma da própria corporação. De acordo com a ACS, ele chegou a fazer contato com o Ciodes (Centro Integrado Operacional de Defesa Social) se mostrando “transtornado”. Quando os militares chegaram a sua casa, o encontraram caído e ferido gravemente. Bonomo foi socorrido para o Hospital São Lucas, onde passou por cirurgia e morreu.

A mãe do soldado confirmou a morte, mas ainda abalada, não quis falar da perda do filho. Um de seus amigos de farda, da turma de 2013, que se encontra baixado da função em virtude de problemas psicológicos, revelou que após a transferência de Bonomo da 5ª Companhia do 4º Batalhão da Polícia Militar para a 13ª Companhia Independente – os militares consideram as transferências com punições – ele se encontrava mais introspectivo.

“Bonomo era um camarada extremamente concentrado e inteligente, conversava bastante com a gente, tinha um bom diálogo com os amigos da tropa. Depois da greve ele se sentia desvalorizado, desencantado com a profissão… Ficamos muito abalados com a morte dele”, relatou o militar.

Perseguições
O soldado afirmou que seu afastamento, atestado por psiquiatra, tem muito a ver com o que levou Bonomo ao suicídio. E revelou que, dos 65 policiais que fazem parte da sua companhia, 13 estão baixados pelos mesmos motivos. “São perseguições que não podemos sequer contestar, falar nada, nem passar para outros superiores, recorrer a ninguém. Comecei a somatizar lesões em meu corpo, olho inchado, furunculoses. O psiquiatra constatou depressão e ansiedade devido a toda a situação de angústia”, afirmou o soldado.

De acordo com a pesquisa Saúde Mental dos Agentes de Segurança Pública, realizada com policiais cariocas pelo Claves (Centro Latino-Americano de Estudos de Violência e Saúde Jorge Careli), da Fundação Oswaldo Cruz, a taxa de suicídio entre PMs é 3,65 vezes maior do que a da população masculina e 7,2 vezes maior do que a da população em geral. A taxa de sofrimento psíquico revelada pela pesquisa do Claves foi de 33,6% na PM e 20,3% na Polícia Civil.

pMESMortes por aneurisma e derrame
De acordo com o presidente da ACS, sargento Renato Martins, não é só a depressão que tem atacado os militares capixabas. “Mortes por aneurisma e derrame também tem acometido as tropas. Em vários policiais têm aparecido doenças de maneira muito intensa. Um policial de 39 anos morreu após um AVC, na cozinha de casa. Outro de 40, com um aneurisma. Outras doenças, não só a depressão, tâm acontecido de maneira mais perceptível que antes”, afirmou.

O sargento afirma, inclusive, que os soldados não têm acompanhamento psicológico adequado. “Nunca tivemos um psicólogo específico. O ultimo psiquiatra militar aposentou há mais de dois anos. O HPM vem passando por processo de abandono. Foi anunciado agora que vai se fazer um processo seletivo. Espero que em vez de ser só processo temporário se transforme em política de Governo. Tratamento de saúde do policial tem que ser pago no plano de saúde. Como policial vai atender bem população nessas condições, se não consegue nem se cuidar?”.

Martins assegura que os problemas psicológicos e físicos são resultado das perseguições, sobretudo após a crise de segurança. Mas destaca que a atividade policial, por si só, já adoece. “O fim de alguns batalhões, transferências, todo esse processo colaborou para o adoecimento. Sem contar que a própria atividade já tem um índice de suicido de policias, que é 7,6 vezes maior do que a população comum. É uma opressão muito grande”.

hospitalpmPsiquiatra: tropa doente e drogas
Para o psiquiatra Bernardo Santos Carmo, que acompanha 500 policiais militares, na sede da ACS e também fora da entidade – e inclusive acompanhou Bonomo – a tropa capixaba está “psicologicamente doente”. “Eu afirmo isso categoricamente. De acordo com relatos de 100% dos meus pacientes, eles não se sentem assistidos pelo HPM e eu tento suprir isso. Há uma desesperança quase que unânime e sentimento de menos valia, de desvalorização do próprio trabalho. Isso é algo que se intensificou muito nos últimos tempos. A irritabilidade também é constante a ponto de, se não houver um tratamento para muitos policiais, pode haver uma tragédia iminente. Inclusive muitos devem ficar afastados por isso. É temerário esses militares continuarem em serviço com o risco de homicídios e suicídios. Já presenciei esse último risco em dezenas de militares”.

O psiquiatra diz ainda que a insônia e a falta de perspectiva são constantes na tropa. Ele afirma que o que chama sua atenção é que detectou a carência de identidade. “Os policiais se questionam para que servem. Ouvi de muitos que a sociedade não reconhece o seu trabalho”.

Carmo declara ainda que a depressão contaminou a tropa capixaba e alerta que irritabilidade e fadiga são sinais para o qual o militar e seus familiares devem ficar atentos. O especialista alerta para o alcoolismo que tem se tornado presente na vida do militar capixaba. “O alcoolismo e o uso de outras substâncias é um assunto delicado, mas é uma realidade. (…) Drogas ilícitas como a cocaína, que é muito co-relacionada ao álcool, também. Há a presença da maconha, mas o uso da cocaína unida ao consumo de álcool infelizmente se destaca. Há o uso extremamente abusivo”, finalizou.

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