Era uma vez o Lobo Mau que resolveu assaltar a casa de Chapeuzinho Vermelho. Arrombou a porta, matou o pai dela a tiros e fugiu carregando tudo o que podia.
         Se a pobre Chapeuzinho Vermelho fosse japonesa teria direito a até 258 tipos de assistência pelo Estado – indenizações, garantia de moradia e emprego, cobertura médica, acompanhamento psicológico etc.
         Se ela fosse portuguesa já poderia receber antecipadamente e sem maiores entraves burocráticos uma razoável indenização por parte do Governo – em última análise, responsável pela segurança de todos.
         Se nossa personagem tivesse nascido na California (EUA), além de todos estes benefícios não precisaria sequer se preocupar com a limpeza e arrumação da casa – ela seria feita logo depois do crime por servidores públicos.
         Mas, como Chapeuzinho Vermelho nasceu no Brasil, este rico país que não tem dinheiro suficiente para ajudar as vítimas de crimes, a única saída foi sentar na guia da calçada e chorar.
         Enquanto isso, a polícia conseguiu prender o Lobo Mau. Cadeia nele – acabou julgado e condenado a alguns bons anos em uma prisão. Se o Lobo Mau tivesse cometido seu crime na Suíça, Suécia ou Dinamarca, teria à disposição todos os recursos para aprender uma profissão e se endireitar na vida. Se na Austrália, poderia até montar uma empresa e administrá-la de dentro da cadeia, iniciando ali mesmo uma nova fase em seu processo de ressocialização.
         Mas, como o Lobo Mau cometeu seu crime no Brasil, este rico país que não tem dinheiro suficiente para ressocializar seus presidiários, a cantiga foi totalmente diferente: colocaram-no em uma cela pequena, com mais quatro presos dentro. Ficavam todos praticamente em volta do vaso sanitário, que aqui elegemos como símbolo maior da perda de cidadania que o fim total de privacidade acarreta – aliás, esta é uma experiência que pode ser repetida em casa. Faça assim: pegue pela rua uns quatro desconhecidos e tranque-se com eles durante uma semana no banheiro. Só não se esqueça de desligar a água quente, limitar o banho a pouco mais de um minuto e instalar a descarga do vaso sanitário do lado de fora – aí sua experiência será bastante próxima da realidade.
         Providencie também para que, com alguma frequência, a comida seja servida estragada, de forma a tornar o vaso sanitário um objeto disputadíssimo e o ambiente bastante desagradável – o que irá acrescentar ainda mais realismo à sua experiência.
         Será muito importante, para fins didáticos, simular algum motim violento. Aí combine com alguém para, de tempos em tempos, jogar gás de pimenta dentro do banheiro. Caso tenha disposição, deprede o banheiro de sua casa a troco de uma distribuição periódica de tabefes, socos e chutes – algo que dizem acontecer pelo país afora.
         Prudente, o Lobo Mau não reclamou – afinal, ele deu sorte de ter ido parar em uma penitenciária onde são apenas quatro ou cinco presos por cela! No mais, ele passava os dias deitado ou de pé, se revezando com os companheiros de cela no uso dos colchões.
         Cumprida a pena – lembre-se de que o Brasil não tem prisão perpétua – o Lobo Mau voltou às ruas pior do que quando delas saiu. Aliás, diante do que “oferecem” as masmorras brasileiras, não surpreende que o índice de reincidência gravite, historicamente, em torno de 80%.
         Sejamos justos: o Lobo Mau bem que tentou arrumar um emprego, mas não conseguiu. Afinal, é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que alguém proporcionar emprego a um ex-presidiário.
         Largado no mesmo ambiente, após ter sido torturado e abandonado pelo Estado, o Lobo Mau voltou ao crime – assaltou e matou Chapeuzinho Vermelho. Em sua lápide escreveram “Aqui jaz uma vítima do Estado”.

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