Na esquina das Ruas Oscar Freire e a Padre João Manuel, nos Jardins, região nobre de São Paulo, tinha uma bike na calçada. Uma bike-floricultura, com vasinhos de cimento queimado servindo de casa para cactos e suculentas (tipo de planta muito usada no paisagismo). Uma bike-floricultura ornada com cordéis de J. Borges. E sem vendedor à vista. Não era só bike-floricultura: era também um convite à honestidade.

Por uma plaquinha em meio às plantas, o interessado é instruído a ficar bem à vontade: escolha seu produto, faça o pagamento no local indicado (uma caixinha de dinheiro ou uma máquina de cartão) e siga o @matosurbanos no Instagram.

Israel Joaquim de Santana, cearense de 29 anos, acompanha tudo de longe, mas nem sempre. Inventou o projeto para complementar a renda que faz como manobrista de um escritório de arquitetura e uma galeria de arte na Avenida Estados Unidos, nos Jardins, zona sul de São Paulo. Por isso, às vezes deixa a bike e as plantinhas sozinhas por horas.

“Nunca ninguém me roubou”, conta aliviado, sem esconder que a hora de retorno é sempre um misto de tensão com confiança. “É um risco. Mas também a é um jeito de resgatar a confiança no povo brasileiro, que anda meio esquecida.”

Medo maior, mesmo, ele tem de algum fiscal da Prefeitura passar e levar a bike embora, enquanto ele está de olho no carro dos outros ou longe da barraquinha. É que ele ainda não tem o Termo de Permissão de Uso.

“Mas o que eu queria mesmo não é ter a autorização para ficar em um só lugar. Queria poder colocar a bike em qualquer lugar, deixá-la com acesso livre para todo mundo. Imagina que legal todo mundo conhecer? E até correr o risco de ser roubado também”, diz ele, sonhador.

Tanta confiança vem também da necessidade. Ele trabalha o dia inteiro, não tem como dar atenção para a bike.

‘Severino’

O Matos Urbanos é um projeto que nasceu aos poucos e ganhou o formato atual há cerca de três meses. “Sou um Severino da vida, né? Já fui pintor, eletricista, encanador, pedreiro. Fiz de tudo. Vi um vídeo no YouTube sobre vasinhos de cimento, aprendi um pouco sobre plantas e resolvi fazer isso.”

Quando dominou a técnica, sugeriu ao arquiteto Gui Mattos colocar os vasinhos em um espaço da casa onde é manobrista. Depois, eles passaram a ocupar uma goiabeira que fica na frente do local. “Mas a situação estava difícil. Ganho R$ 1,4 mil, tenho 4 filhos”, lembra. Então tomou coragem e pediu ajuda aos chefes para comprar o que planejava ser um “food bike”.

A ideia era que a mulher dele, Viviane, vendesse tapioca, mas não deu certo. ” Resolvi então tirar os vasinhos da goiabeira, colocar na bike e comecei a circular à noite, ao sair do trabalho, pelas ruas dos Jardins.” Virou garden bike.

No Dia dos Namorados, deixou a bike na Oscar Freire. O público aprovou. Acabou chamando a atenção até do chef Alex Atala, que o convidou a deixar a bike no restaurante Dalva e Dito nos fins de semana. Durante o dia, deixa o negócio na frente do escritório. Mas, como está de férias este mês, tem a cada dia posto a barraquinha em um lugar diferente do bairro.

Hoje deixa a bike com as plantinhas estacionada perto do trabalho à noite, mas sonha em aumentar o negócio para ter mais bikes e um carreto para levá-las mais para longe. Nos rolos da vida, Santana também atende por Renato. A confusão vem da época em que ele, ainda adolescente e namorador, dizia um nome diferente para cada namorada. Um dia, uma das moças, que viria a se tornar mulher dele, apareceu grávida. “Aí não dava mais, né? Contei a verdade. Mas todo mundo já me chamava de Renato. Até já tinha me acostumado com o nome.” As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Giovana Girardi
Estadao Conteudo
Copyright © 2018 Estadão Conteúdo. Todos os direitos reservados.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *