Hoje faremos um exercício de imaginação. Feche seus olhos, respire fundo e faça, mentalmente, uma viagem rumo ao passado. Nosso objetivo será registrar as penas cruéis e degradantes que a humanidade aplicava aos condenados durante o século I – há uns dois mil anos, pois.

         Vamos começar pela cidade de Mashhad. Contemple a cena de dois ladrões sendo carregados à força. Aguardando-os, um carrasco com um pequeno machado às mãos. Um a um, seus dedos das mãos – todos eles – vão sendo amputados, como punição pelo mal que causaram.

         Ali perto, na cidade de Jizan, um outro ladrão encontra a morte, sob a forma de decapitação. Em seguida à execução, sua cabeça é descartada, e o corpo, crucificado. A cruz é, então, conduzida até uma praça da cidade, onde ficará em exposição pública durante três dias, para que toda a população contemple a aplicação da justiça.

         Enquanto isso, em Tarragona, um outro condenado, acorrentado a uma cadeira, tem colocado em seu pescoço um colar de ferro – que vai sendo apertado, pouco a pouco, pelo carrasco. Lentamente, vê a morte chegando de uma das formas mais cruéis possíveis.

         Há registros históricos de que também passou pela experiência da morte lenta e dolorosa um condenado de Fenix – segundo consta, o dito cujo agonizou ao longo de duas horas nas mãos de seus carrascos, antes de exalar seu último suspiro.

         Agora, vá a Tabqa. Passará por você uma mulher, sendo empurrada por alguns guardas. Considerada adúltera, ela vai enfrentando uma “via crucis” até um pequeno areal. Um buraco é cavado para que seu corpo nele seja enfiado, ficando apenas a parte superior de fora. Uma pequena multidão, então, passa a apedrejá-la impiedosamente, até que morra.

         Sua próxima escala será em Shahpur Chakkar, para acompanhar o cumprimento de uma pena de decapitação imposta a duas outras mulheres, acusadas de flerte. Aproveite e presencie a lapidação de diversas outras – morrerão apedrejadas por terem recusado um casamento.

         Não muito longe dali, em Jeddah, outros dez ladrões vão sendo mortos, um a um, através de golpes de espada desferidos pelo carrasco. Mas nem tudo é tristeza: vá a Kabul, distante 40 dias de camelo dali, e veja uma multidão estimada em 30 mil pessoas alegremente aglomerada em uma arena, mais ou menos do tamanho do famoso Coliseu romano. Os condenados vão chegando, às dúzias – uns terão as mãos amputadas, outros serão chicoteados, e mais alguns tantos morrerão, tudo para o deleite dos ávidos espectadores.

         Ao passar por Cheptobon, pare na praça central para ver condenados sendo chicoteados na presença da população – o crime deles foi vender uma bebida fermentada parecida com cerveja.

         Finalmente, aproveite a viagem e visite uma masmorra “daqueles tempos”. Contemple os presos amontoados em uma pequena arena, cercada por altas muralhas. A alimentação é jogada lá do alto, como que para animais. Buscando proteção contra o frio, dormem encostados uns nos outros – como animais. Fazem suas necessidades em um canto qualquer – como animais. Aos poucos, vão adoecendo e morrendo.

         Tenho uma confissão a fazer: ao iniciar este texto, “preguei-lhe uma peça”. A viagem sugerida, em verdade, não é no tempo, mas apenas pelo espaço. Eu já vivia, e já era até bastante crescido, quando cada um dos episódios acima aconteceu – e vejam que sequer à velhice cheguei! Em tempo: a cidade de Mashhad fica no Irã, Jizan e Jeddah na Arábia Saudita, Tarragona na Espanha, Tabqa na Síria, Kabul no Afeganistão, Shahpur Chakkar no Paquistão, Fenix nos EUA, Cheptobon no Quênia – e a masmorra, aqui no Brasil.

         Que tal, contemplando estes exemplos, pensarmos no quão pouco evoluímos, enquanto seres humanos, ao longo dos últimos dois mil anos?

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