Dia desses, passando os olhos pelo jornal norte-americano “Huffington Post”, deparei-me com interessante matéria sobre as eleições levadas a efeito naquele país nos idos de novembro de 2014.

         Cito, inicialmente, o título da reportagem: “As eleições de 2014 custarão US$ 3,7 bilhões. Aqui estão nove maneiras de gastar melhor este dinheiro”. Transcrevo, a seguir, em tradução livre, as sugestões do veículo de comunicação.

         A primeira delas é combater o Ebola. Segundo divulgado pela agência Bloomberg News, os recursos destinados à busca de uma cura para a doença caíram de US$ 59 milhões em 2006 para US$ 42,5 milhões em 2013. Recentemente, o Congresso autorizou mais US$ 750 milhões, diante de uma epidemia que ameaça o mundo e já consumiu cinco mil vidas – tudo isto, somado, daria menos que um quarto das despesas realizadas pelos candidatos.

         A segunda sugestão consiste em atenuar o sofrimento das crianças que emigram ilegalmente para os EUA, mantidas em condições degradantes até que deportadas. Para enfrentar esta crise humanitária, o governo teria solicitado ao Congresso precisos US$ 3,7 bilhões, tendo, porém, recebido apenas US$ 659 milhões.

         A terceira medida apresentada seria salvar todas as espécies ameaçadas de extinção nos EUA, em cumprimento a uma legislação recentemente aprovada – isto custaria modestos US$ 1,7 bilhão.

         A quarta proposta consiste em arcar com todo o orçamento nacional destinado às artes e à cultura – alguma coisa em torno de US$ 1,57 bilhão, menos da metade do que os candidatos gastarão em suas campanhas.

         A quinta idéia seria alimentar dois milhões de refugiados sírios, despesa que a ONU estima em ínfimos US$ 352 milhões – meros 10% dos valores doados aos candidatos para sustentar suas caminhadas.

         A sexta alternativa seria implantar toda uma série de serviços destinados a proteger as mulheres de violência – algo igualmente já autorizado por lei, porém no aguardo de materialização. Coisa para US$ 1,6 bilhão – menos da metade do valor tomado como referência, pois.

         A sétima indicação tem a ver com o Brasil. Após mencionar que somente restam 8% de nossa Mata Atlântica, os autores da reportagem registram que apenas US$ 600 milhões investidos ao longo de três anos preservariam a biodiversidade da região.

         A oitava opção seria adquirir dois lucrativos times de futebol – o Buffalo Bill, estimado em US$ 1,4 bilhão, e o Carolina Panthers, avaliado em US$ 1,7 bilhão.

         A derradeira via sugerida é, não por acaso, profundamente simbólica: ajudar no crescimento de um conglomerado relacionado ao ramo petrolífero, que, sozinho, está a caminho de injetar US$ 400 milhões no processo eleitoral, buscando influenciá-lo.

         Realço, para máxima clareza e compreensão da reportagem mencionada, que os US$ 3,7 bilhões citados não incluem os gastos da máquina estatal com o pleito – são relativos apenas e tão somente a valores arrecadados por candidatos, com vistas ao sustento de suas campanhas.

         Após ler esta matéria, recordei-me de uma outra, que li há alguns meses em um jornal da California: “Interesses externos patrocinaram 39% das leis aprovadas durante os dois últimos anos da presente legislatura”. Lembrei-me, então, de estudo realizado naquele país, indicando que entre 1958 e 1994 a parcela dos que acreditam serem os governantes corruptos pulou de 24% para 52%.

         Diante deste quadro, só nos resta ponderar que a democracia não veio de graça – antes, custou muita dor e sacrifício a milhões de pessoas ao longo da caminhada da humanidade. Que alguns poucos respeitem, pois, se não os anseios de bilhões de seres perplexos, ao menos a memória destes herois – e a certeza de que as coisas da vida passam, e passam muito depressa.

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