Ao longo da Copa do Mundo de Futebol de 2014, enquanto as seleções mundiais se digladiavam buscando o sonho de um título mundial, o famoso jogador holandês Johan Cruyff publicou, em sua coluna no jornal “De Telegraaf”, uma frase que deveria servir de reflexão a todo um povo. Escreveu ele: “É um pecado que países como Brasil e Argentina aproveitem tão pouco seus talentos”.
         Malgrado ser relativa à ciência do futebol, eis aí uma observação que com facilidade pode ser aplicada a praticamente todos os setores da vida nacional – e dela poderiam surgir melhorias significativas para praticamente todos os brasileiros.
         Comecemos com o fato de que temos, reconhecidamente, um dos povos mais criativos do planeta. Somos mundialmente famosos pela capacidade de improvisar e de contornar obstáculos. No entanto, nosso país não estimula seus filhos sequer no registro de suas criações.
         Somente para se ter uma ideia, na relação mundial de registros de patentes ficamos atrás de Uganda! Enquanto os EUA registram 309 patentes para cada milhão de habitantes, ficamos com apenas 0,6. Registro que a média mundial (dados de 1999) foi de 15 patentes por milhão de habitantes.
         Estes números mudaram em 2005, mas continuamos em dívida com nossos inventores. O Japão passou a obter 3.000 patentes para cada milhão de habitantes, a Coreia do Sul 2.500, os EUA 700, a Alemanha 600 e a Austrália 500 – enquanto isso o Brasil reduziu em 13,5% o número de registros relativamente ao ano anterior.
         Este quadro, além de escancarar as deficiência de nossas legislação e burocracia, nos remete a um outro, qual o da educação. Nossas crianças, apesar das imensas fortunas gastas com escolas, nelas convivem com índices de violência e abandono do Estado dentre os mais vergonhosos do planeta – quem conseguirá verdadeiramente desenvolver-se enquanto cidadão sob tal realidade?
         Não causam surpresa, assim, dados retratando que apenas 22,3% das crianças do Pará completam o ensino fundamental – ou que 68% dos brasileiros entre 15 e 64 anos não conseguem ler nada além de um anúncio de cinco ou seis palavras.
         Estas crianças, o Brasil do futuro, não encontram diante de si apenas a barreira da violência ou da falta de estrutura – há também a da nutrição adequada. Vale recordar, aqui, pesquisa da OMS, encontrando junto à nossa população – crianças incluídas – uma deficiência de 78,59% de vitamina A, 22,24% de vitamina B1, 67,82% de vitamina B2, 65,86% de vitamina B6, 27,26% de vitamina B12 e 52,13% de niacina.
         Vamos às consequências disso: recentemente pesquisadores norte-americanos demonstram de forma inequívoca que crianças com deficiência de um único micronutriente – o ferro – aprendem apenas 50% do que lhes é ensinado.
         Estaríamos desperdiçando larga parte de uma geração de brasileiros? Não – na verdade, de três. E assim porque este quadro de desnutrição coloca em risco as duas gerações seguintes – foi o que demonstraram cientistas norte-americanos. Funciona assim: um quadro de carências acaba alterando o DNA, tornando as duas gerações seguintes mais suscetíveis a diabetes, obesidade e até câncer.
         Victor Hugo, o genial escritor francês, certa vez exclamou que “o que guia o mundo não são máquinas, são ideias”. Perfeito! E o Brasil tem todas as condições para ser um celeiro de ideias neste novo mundo que se descortina ali no horizonte. Já temos, aqui, excelentes profissionais, de capacidade e criatividade reconhecidas mundialmente – e podemos, com facilidade, ter muito mais.
         Só precisamos que nosso país rompa com deficiências históricas, superiores a governos e regimes, não mais desperdiçando seu melhor produto – o brasileiro, na expressão feliz de Câmara Cascudo.

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