Às vezes me vejo pensando e perguntando, qual seria a melhor definição e/ou explicação para o que se entende por “ser humano”. Sabemos que somos uma mistura de racionalidade e irracionalidade, de emoção e razão, de sensibilidade e indiferença… seres finitos, complexos, adversos, evolutivos…

                São tantas definições que de certa forma tentam explicar o que somos que às vezes acabam por polarizar situações e conceitos, que limitam a possibilidade de aprofundamento, de novas percepções e entendimentos.

                Para ilustrar esta polaridade evocarei as ideias de Hobbes e Rousseau. Dois filósofos que buscaram com seus respectivos fundamentos explicar o que somos. Para Hobbes somos “o lobo do próprio homem”, portanto um ser que é capaz de “devorar” sua própria espécie para atingir seus objetivos individuais que em muitos casos beiram ao egoísmo. Já Rousseau defendia que somos “um bom selvagem”, um ser que quando educado se torna o melhor dos animais e quando mal-educado o pior de todos.

                E afinal de contas qual deles estaria com a razão? O mundo nos mostra que há exemplos de ambos os casos. Quantos lobos existem por aí transfigurados de seres humanos? Mas ao mesmo tempo, quantas pessoas existem neste mesmo mundo que se doam, que acreditam que podemos estabelecer uma sociedade humanamente educada, procurando de certo modo combater as injustiças, o egoísmo e propagam a caridade, a fraternidade e a justiça?

E qual seria a nossa escolha? Ser lobo como constata Hobbes ou ser “um bom selvagem” como define Rousseau? Talvez a primeira opção num primeiro momento se mostre como a mais fácil, pois assim vivemos como menciona um ditado popular, cada um por si e seja o que Deus quiser. Todavia, será este o melhor caminho, mesmo sendo o mais fácil?

Há escolas que funcionam, outras não; há hospitais que funcionam, outros não; há cidades que funcionam, outras não; há países que funcionam, outros não… enfim, se há exemplos que funcionam, mostra que é possível. Talvez o segredo seja perceber se em cada um desses lugares há lobos ou bons selvagens que se educaram.

E nós, brasileiros, nos enquadramos nos lugares que funcionam ou não; somos lobos? Bons selvagens? Se somos lobos temos convicção que é melhor continuar assim? Caso contrário, estamos dispostos a deixar o nosso estado de selvageria, cegado cotidianamente pelo egoísmo avassalador e destruidor?

Amanhã é sempre um novo dia. Podemos ser sempre uma nova pessoa se nos educarmos, ou mais vorazes se assim preferirmos. Depende sempre de cada um de nós acreditar não somente em si mesmo, como os lobos fazem, mas ousar e crer que juntos podemos ser melhores, e que o outro também é corresponsável pela minha vida e vice-versa.

Como amanhã é sempre um novo dia e se há lugares que funcionam não nos custa sonhar com dias melhores.

Walber Gonçalves de Souza é professor e escritor.

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