Dia desses, tentando colocar minhas coisas em ordem, fiquei a meditar: você nasce, e ganha uma Carteira de Identidade. Logo depois, um CPF. E um documento estudantil. Em seguida, a CNH. O Título de Eleitor. O cartão do plano de saúde. E é assim, de registro em registro, que vamos sendo apresentados ao sinistro mundo da burocracia.

Carregar isso tudo por aí é um tormento – ora esquecemos exatamente “aquele documento” em casa e perdemos a viagem, ora a carteira é extraviada e nos vemos condenados ao suplício interminável de tirar a segunda via de tudo. Isso sem mencionar o sofrimento imposto às pobres carteiras, que, de tão estufadas, praticamente já não cabem em um bolso normal.

Mas talvez pior do que carregar toda esta “papelada” é ter que exibi-la “ao vivo e a cores” aqui e ali, lá e acolá. Pense em quantas vezes você cruzou a cidade e enfrentou uma fila simplesmente para mostrar a alguém algum dos documentos que habitam sua carteira.

Que tal pensarmos em acabar com tudo isso? Esta a idéia do governo britânico, que acaba de lançar as bases de um programa que, gradativamente, atribuirá a cada cidadão uma “identidade virtual” contendo diversas informações necessárias à vida cotidiana.

Funciona assim: você comprova sua identidade, se cadastra, recebe um nome de usuário, uma senha e um código. E só. A partir daí, seja no mundo real ou virtual, tudo fica mais fácil – desde pedir um passaporte pela Internet até agendar uma consulta médica, por exemplo. Ou provar a alguém, em ambiente público ou privado, quem exatamente você é.

Gostou da comodidade de não mais ter que carregar os símbolos da burocracia em sua carteira? Agora acrescente a economia que isso trará. No caso do Reino Unido, prevê-se uma economia de US$ 2,7 bilhões nos próximos cinco anos – observando que este é apenas o período de implantação lenta e gradativa do sistema.

O fato é que descobriram, naquele país, que uma presença física custa, em média, 50 vezes mais que uma transação eletrônica. Correios? 30 vezes mais. Telefone? 20 vezes. Isso sem considerar os incômodos de deslocamento e perda de tempo – coisas que, convenhamos, simplesmente não tem preço!

Vamos a outro benefício adicional: redução do número de fraudes relacionadas ao uso de documentos de identidade – e só neste quesito o Reino Unido perde, a cada ano, a impressionante cifra de US$ 31,82 bilhões.

É importante observar que a administração pública já tem todas estas informações, porém de forma dispersa – para os cidadãos, bem entendido! E assim porque o Estado já é capaz de acessar, de forma centralizada, praticamente todos os dados de qualquer pessoa, algo que dificilmente conseguimos sobre nós mesmos sem uma sofrida peregrinação por diversos órgãos.

Timidamente, este processo de simplificação começa a ganhar corpo pelo mundo afora – tenho lido notícias sobre a adoção de mecanismos mais simples de identificação em países tão distintos quanto EUA, Indonésia e Portugal, dentre outros. Tudo, porém, incipiente.

Não sei bem por qual motivo, mas acabo de lembrar-me dos saudosos bancos escolares – particularmente das aulas de história universal. Aprendi, quando criança, que lá em Roma os escravos eram obrigados a portar permanentemente um colar de identificação. Saí à cata de um deles pela Internet, buscando saber seu peso médio. Cheguei à conclusão de que cada um pesava em torno de 450 gramas.

Decorridos mais de dois mil anos, ocorreu-me pesar uma carteira moderna, daquelas comuns, contendo apenas os documentos e cartões necessários à sobrevivência na selva da burocracia. Juntei tudo nela e coloquei-a numa balança. Deu 410 gramas – 40 gramas a menos. Que bom! Como evoluímos de lá para cá!

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