Já ouviu falar da “fome invisível”? Não? Pois é: talvez você esteja a passar fome, danificando seriamente sua saúde, e ainda não tenha se dado conta disso. Aliás, eu, você, os norte-americanos, os alemães, os australianos, os ingleses etc.

         Vamos começar pela rica Alemanha, país no qual 65% dos habitantes apresentam carência de ferro no organismo – descobriu-se que a ingestão diária equivale quase que à metade da recomendada.

         Aqui perto, na Argentina, famosa pela qualidade de seu rebanho bovino, 80% das pessoas não ingerem a quantidade recomendada de laticínios, o que tem levado a sérias deficiências de cálcio no organismo.

         Na ensolarada Austrália, recente investigação governamental constatou que quatro milhões de habitantes começam a enfrentar problemas de saúde simplesmente por conta de carência de vitamina D – problema que aflige também 20% das crianças norte-americanas.

         No Equador, Peru e Bolívia, segundo pesquisa realizada pela OMS, 40% das crianças apresentam deficiência crônica de zinco. Na Índia, 40% das crianças até cinco anos de idade são anêmicas – mal que afeta nada menos que um quarto da população mundial.

         No Brasil, segundo dados da Sociedade Brasileira de Nutrição, 48% dos pacientes internados em hospitais são desnutridos. Enquanto isso o Ministério da Saúde constatou deficiência de vitamina A em 21,6% das crianças até cinco anos de idade na Região Sudeste. E o IBGE revelou, não faz muito tempo, que 98% dos brasileiros não ingerem as quantidades adequadas das vitaminas D e E.

         Creio ter ficado claro, à vista destes poucos exemplos, que não estamos a tratar daquela “fome dos pobres”. Absolutamente. Falamos, antes, de um quadro de carência de vitaminas e minerais que nos afeta a praticamente todos, independentemente de classe social ou localização geográfica.

         Vejamos, agora, as consequências deste quadro. Comecemos por recente levantamento publicado no “European Heart Journal”, segundo o qual a falta de nutrientes na infância, na adolescência e no início da fase adulta aumenta o risco de doenças cardíacas anos mais tarde.

         Há também a depressão, cada vez mais frequente: ampla pesquisa realizada pela Sociedade Dominicana de Psicologia Clínica, sobre dois mil pacientes, neles encontrou – em 100% deles, realço – níveis de lítio inferiores à metade do que seria considerado normal.

         Cito também um estudo publicado pelo “American Journal of Public Health”, segundo o qual baixos níveis de vitamina D praticamente dobram os riscos de morte prematura. Um outro, levado a efeito na Costa Rica, demonstrou que a falta de ferro na primeira infância pode comprometer o desenvolvimento do cérebro de maneira irreversível.

         Digno de menção, igualmente, um estudo britânico, a demonstrar que a carência de zinco no organismo eleva significativamente os riscos de autismo em crianças. Complementa-o um outro, equatoriano, relacionando uma outra consequência: estatura mais baixa.

         Encerro com uma outra, australiana, que deveria servir de alerta a cada um de nós: a alimentação inadequada responde por nada menos que 50% das mortes! Apontou-se, inclusive, que a persistirem as atuais tendências, em 2025 83% dos homens serão obesos, porém subnutridos, e bem assim 75% das mulheres.

         Vistas as consequências, vamos agora aos custos: segundo apurado pela FAO, o planeta perde a cada ano US$ 3,5 trilhões – eis aí o preço desta “fome invisível”, da qual quase todos padecemos. O pior: seus efeitos se prolongam, em média, por duas gerações.

         Acredito que uma parte da solução esteja em leis que imponham o enriquecimento da alimentação que ingerimos, algo já iniciado em 80 países, Brasil incluído. Afinal, ensinava Feuerbach, “o homem é aquilo que come”.

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