O início de 2017 está levando milhares de capixabas às filas dos postos de saúde em busca de imunização contra a febre amarela, deixando à mostra os problemas de muitas administrações municipais em gerenciar um serviço essencial à população.
Gente que se sente cotidianamente humilhada, passando noites nas portas de unidades de saúde, sob sol forte, sem entender por que as prefeituras não estão sendo capazes de atender à demanda, já que o Governo Federal garantiu o envio de doses para imunizar a todos, além de recursos financeiros para fazer frente a esse surto, que estava erradicado na forma urbana desde 1942.
Que a saúde é política pública sucateada na maior parte das cidades brasileiras, isso é fato. Porém, o problema da febre amarela demonstra um “mal” que é ainda pior, e contamina praticamente o setor público como um todo: a incompetência em gerenciar crises.
Na segurança, tivemos a prova cabal da falta de esforço do governo estadual em cuidar de uma categoria essencial para a ordem pública, levando os militares a se indignarem e cruzarem os braços, após anos sem reajuste em seus vencimentos.
Agora, na saúde, enquanto cidadãos esperavam horas por uma simples vacina, políticos se amontoavam em torno do Ministro da Saúde para “sair bem na foto”. E teve prefeito que mandou quem esperava horas na fila se calar, para que ele pudesse fazer seu discurso.
A logística para receber autoridades, aliás, é maravilhosa no estado, quando interessa a alguns grupos que se revezam no poder.
Essa rapidez, todavia, não foi vista na hora de tratar da logística de enfrentamento à crise, levando à limitação de doses da vacina, à falta de planejamento na distribuição de senhas e à falta de uma publicidade de utilidade pública, para conscientizar a população sobre o surto e dar as devidas orientações sobre os locais de vacinação e a oferta de vacinas em cada unidade de saúde.
Quando interessa aos prefeitos, milhões são gastos em publicidade institucional, para promover “suas obras”. Porém, quando é urgente e extremamente necessário informar e educar os cidadãos, essa mesma publicidade é omissa ou nula.
O surto de febre que enfrentamos não é apenas aquele que vem do vírus transmitido pelo mosquito: é, antes de tudo, uma febre de incompetência (com ou sem dolo) daqueles que deveriam estar cercados de pessoas competentes para ocupar cargos tão importantes em áreas essenciais, como saúde e educação; e, em detrimento da dignidade das pessoas e da oferta de um serviço público eficaz, se prestam a lotear secretarias com indicações políticas de pessoas que não sabem o que fazer em momentos como este.
Se não faltam doses da vacina e foi garantido o dinheiro para contratação de pessoal e infraestrutura, o que falta de verdade para que todos sejamos imunizados? Certamente, esta é a pergunta que não quer calar e serve de lição para os gestores das nossas cidades, algumas delas notificadas pelo Ministério Público Federal – MPF a elaborar um plano para enfrentar esse surto e acabar com as longas horas de espera e o desespero dos cidadãos que buscam imunização – e principalmente, respeito.

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