Dia desses, meio que por acaso, meditava sobre o mundo de minha infância. Havia o bem e o mal – este era a sinistra “Cortina de Ferro”, e aquele as democracias ocidentais. Do lado de lá imperava a opressão do Estado, e do lado de cá o respeito absoluto à dignidade humana.

         Recordo-me, com perfeição, das reportagens, filmes e discursos inflamados tendo como pano de fundo o autoritarismo que imperava do lado de lá – eram retratadas as revistas vexatórias em aeroportos, as barreiras policiais, a espionagem estatal, o controle da imprensa etc. Tudo isto acabou, porém. Virou lixo da história. Foi o que trombetearam há pouco tempo, quando da celebração dos 25 anos da queda do famigerado Império Soviético.

         Enquanto isso, em meio a tantas comemorações, os aeroportos norte-americanos seguiam firmes na instalação de aparelhos capazes de “ver” através da roupa dos passageiros.  Ainda naquele país, uma mãe, com o filho no colo, foi forçada a provar o leite de uma mamadeira, de molde a tranquilizar as equipes de segurança. Idosos doentes, alguns com mais de 80 anos, registraram recentemente a humilhação de, em pleno aeroporto, serem obrigados a baixar as calças para exibir sacolas de coleta de excrementos – a de um deles, de urina, soltou-se e foi assim, molhado e humilhado, que ele conseguiu embarcar em um avião.

         Do outro lado do oceano a câmera de um indignado passageiro registrou o momento em que uma criança de três anos de idade começou a chorar e gritar para um agente de segurança: “pare de me tocar”. Na Austrália, uma passageira, traumatizada por conta de ter sido vítima de estupro, assustou-se ao ser tocada em suas partes íntimas durante uma revista e acabou presa.

         E as barreiras policiais? Não faz muito tempo um grupo de defesa dos direitos civis denunciou, no Reino Unido, que milhares de adultos estão sendo literalmente “punidos” por inspeções realizadas sem nenhum motivo aparente, em verdadeira banalização das abordagens policiais. Denúncias similares tem surgido nos EUA, país no qual já questiona-se se o ato de forçar a exame público de embriaguez alguém que não apresente o menor sintoma de ingestão de álcool não configuraria abuso e violação a direitos constitucionais.

         Há ainda a privacidade, cada vez mais apenas uma reminiscência histórica. Que o diga recente revelação de que órgãos de segurança norte-americanos coletam cinco bilhões de registros telefônicos a cada dia. Quer mais? Senadores norte-americanos denunciaram, recentemente, que as agências governamentais daquele país e do Reino Unido chegaram ao ponto de coletar imagens geradas a partir das câmeras de video que qualquer computador moderno tem.

         Conforme apurou-se, em apenas seis meses um único órgão gravou imagens domésticas de 1,8 milhão de pessoas pelo planeta afora, sem que elas sequer se dessem conta! Assim, se você dorme com seu computador por perto, não se esqueça de dar um aceno ou um “boa noite” ao deitar-se – afinal, o Grande Irmão pode estar te espiando!

         Não nos esqueçamos do controle da imprensa. Nunca, na história, jornalistas foram tão monitorados e espionados, conforme denunciou recentemente nos EUA a Human Rights Watch. Há ainda recente denúncia de que a Comissão Européia tem injetado milhões de Euros em grupos dedicados a restringir a liberdade dos meios de comunicação.

         Considere, agora, que nada disso veio “do dia para a noite”. Foi sendo imposto gradativamente aos cidadãos, sob nomes pomposos como “cultura de segurança”, “combate ao crime” etc. Trata-se de um processo longo, que muitas vezes nos passa desapercebido.

         É quando sugiro olharmos em volta. Meditarmos sobre nossas rotinas. E nos perguntarmos: em que ponto deste processo estamos?

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