Art. A corrupção no mundo. Onde está o BrasilA corrupção é um dos principais temas que veem à mente dos brasileiros, especialmente quando o assunto é política. Este é o mal mais impudico e sórdido a assolar a sociedade brasileira, visível especialmente pelos recentes acontecimentos – quase sempre em tons de denúncia – que envolvem tanto o setor privado quando o setor público. Todavia, é evidente que a prática da corrupção não se restringe unicamente a um ou outro destes ambientes, mas ao contrário: forma uma amálgama de tal forma que é difícil dissociar onde começa um e termina o outro. Em tal conjuntura, não é raro encontrarmos quem, de forma equivocadíssima, diga que “o Brasil é o país mais corrupto do mundo”. Será?

              Tomemos como base, para uma análise internacional deste fenômeno, os dados do Transparency International. Os resultados para Index de 2016 (são anuais) foram elaborados através da criteriosa análise de 176 países/territórios. Comecemos, então, pelos menos corruptos. De acordo com o Index, os 5 países considerados como os que possuem os menores índices de corrupção são, respectivamente, Dinamarca e Nova Zelândia (empatados), seguidos da Finlândia, Suécia e Suíça. Não é mera coincidência que estes Estados possuam um baixíssimo grau de analfabetismo político, no qual impera uma sociedade que valoriza bens culturais e que aposta, sobretudo, em valores de educacionais e culturais, além de democráticos. Neste cenário, é evidente que o poder político tende a agir em prol da sociedade; em toda a sua pluralidade possível.

              Partindo do ideal republicano, fundado em princípios democráticos, pode-se constatar que estes países possuem índices elevados de contestação e participação pública da sociedade civil, consequentemente aproximando-os do que Robert Dahl chamou de Poliarquia. Em outras palavras, uma democracia sólida e consolidada. Percebe-se que há, neste contexto, uma via de mão dupla: ao mesmo tempo em que uma sociedade assim gera insumos para combater a corrupção, por um lado, os baixos índices de corrupção, por outro, tendem a fortificar e aumentar cada vez mais tais valores de responsabilidade e transparência (accountability); o que repercute diretamente no fortalecimento da democracia.

              Diametralmente e em radical oposição a este cenário, os cinco Estados com maiores índices de corrupção são, respectivamente (e gritantemente), a Somália, Sudão do Sul, Coréia do Norte, Síria e Iêmen. Todos são países que possuem uma instabilidade institucional significativa (por exemplo, a Síria está em guerra civil desde 2011 e o Iêmen desde 2015); a isolada Coréia do Norte oscila entre a autocracia e o totalitarismo; quanto à Somália e o Sudão do Sul, pode-se dizer que estes são dois Estados africanos cuja igualdade social e economia são precaríssimas (além dos torpes padrões educacionais).

              Mas, caro leitor, e o Brasil? Qual a posição que o nosso país possui neste índice de corrupção mundial? Surpreendentemente (para muitos), o país divide a 79° posição (de um total de 176), empatado com a Bielorrússia, China e Índia (quanto pior a posição, maior será o índice de corrupção). Ademais, entre os 36 países estudados em todo o continente americano, o Brasil ocupa a 14° posição. Lidera este ranking, por ordem decrescente, o Canadá, os Estados Unidos e o Uruguai; os últimos três colocados são respectivamente, a Nicarágua, Haiti e Venezuela. Estamos bem colocados…

Ao contrário da sobejada imagem que o brasileiro cria de si mesmo como uma das nações mais corruptas, a posição que o Brasil ocupa no cenário internacional é a prova de que tal jargão não se sustenta. Aliás, aponta para uma solução! É possível, sim, reverter este quadro e melhorar a nossa posição (o bom seria se não houvesse posições em níveis de corrupção; mas deixemos as utopias com Thomas More e fiquemos com o realismo de Maquiavel). Destarte, tomemos como base a realidade de outros países para entendermos e melhorarmos a nossa própria. É na sociedade, nos nossos próprios valores (entre cobranças e reflexos), que está a solução. Doravante, “tenhamos paz no futuro e glória no passado”!

Marconi Severo
Cientista Social & Político

Cometários

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