Há alguns meses, adquiri uma câmera filmadora veicular. Trata-se de uma engenhoca que registra, permanentemente, tudo o que se passa ao redor do veículo – uma verdadeira “caixa preta automotiva”, pois.

         Eis que, dado dia, à noite, retornando para casa, vi quando um motociclista avançou um sinal vermelho – de forma clara e irretorquível – vindo a abalroar um veículo que passava pela via transversal.

         Saltamos, eu e outros motoristas, para tentar socorrer o motociclista, que ficou estendido no chão praticamente sem sentidos – o acidente havia sido grave, afinal.

         Eis que, para minha surpresa e absoluto horror, alguns minutos depois pessoas começaram a chegar, acusando o condutor do veículo abalroado de “não ter respeito pelos mais fracos”, de “querer matar o motociclista”, de “ter avançado o sinal e batido no motociclista”, de “não ter pena dos motociclistas” etc.

         Falavam, todas elas, com uma certeza tamanha que um ambiente confuso começou a se formar. Ao meu lado, vendo aquilo, um motorista de outro veículo comentou comigo: “De onde vieram estas pessoas? Nós vimos o sinal fechado! Elas nem viram o acidente!”

         Após cumprir com meu dever de ser humano e cidadão, coloquei a filmagem que a câmera de meu veículo captara à disposição, e fui para casa conferi-la. Absolutamente chocado, confirmei o que meus olhos haviam visto: o motociclista avançara o sinal vermelho de forma clara. Aliás, o semáforo apenas mudaria de cor muitos segundos depois!

         Fui dormir acabrunhado com o que havia presenciado – um acidente infeliz e uma distorção de fatos chocante, hábil a ensejar uma grave injustiça e macular, para sempre, a vida de um semelhante.

         Nos últimos anos, temos visto a população indignar-se, e com razão, diante da escassez, no Brasil, do que chamaríamos “justiça”. Sou um dos que se indignam com este quadro – e sempre expressei este sentimento por escrito e pela imprensa.

         Daí minha decepção, ao ver a verdade tão maculada pelas mesmas ruas que acolheram milhões de brasileiros – eu incluído – em manifestações diversas nas quais pedia-se, em resumo, “justiça”.

         Vi, diante de mim, pessoas educadas e instruídas praticando uma distorção de fatos que, não fosse a filmagem do acidente, poderia induzir a erro Advogados, a Polícia, o Ministério Público e o Judiciário, com consequências gravíssimas.

         A propósito, é tão clara a Lei dos Homens, ao prever o crime de falso testemunho, punindo-o inclusive com reclusão. E não nos esqueçamos dos Dez Mandamentos: “Não dirás falso testemunho contra o teu próximo”.

         De toda sorte, estas pessoas não estão sozinhas – refletem um quadro nacional de inversão de verdades e fuga a qualquer custo de obrigações, seja a nível civil ou criminal. Tornou-se habitual, de alto a baixo, a conversão da defesa de direitos na criação de outros inexistentes – e isto ajuda a infernizar ainda mais nosso já confuso e anacrônico sistema legal.

         Diante desta realidade, o jeito é retornarmos no tempo, buscando inspiração na fala do saudoso índio Mário Juruna. Ao longo da década de 1970, exclamando que “brancos mentem muito”, este personagem causou espécie ao percorrer órgãos governamentais com um gravador pendurado no pescoço.

         É o jeito. Trate de adquirir uma filmadora. Aproveite e compre também um gravador. Acione a câmera de seu celular. E sugiro pendurar no pescoço uma placa com os dizeres “sorria, você está sendo gravado, filmado e fotografado”.

         Mas volto ao local do acidente. Sangravam, ali no asfalto áspero, além de um semelhante nosso, talvez a consciência de um país – enquanto sussurrava a brisa da noite a inesquecível advertência de Thomas Jefferson: “eu temo pela minha espécie quando penso que Deus é justo”.

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