O Brasil se globalizou. Abriu suas fronteiras. Vendeu para grupos estrangeiros sistemas de telefonia, de energia elétrica e até de rodovias. Nossos hotéis têm sido vendidos para grupos espanhóis e portugueses. A exploração de nossas fontes de água mineral tem sido entregue a empresas suíças e francesas.  Nosso petróleo tem sido explorado por empresas norte-americanas, e até o leite de nossas vacas é vendido para nós mesmos por indústrias italianas e suíças.

                  Só entre janeiro e maio de 2011 – e lá se vão sete anos – estas empresas enviaram lucros de 3,6 bilhões de dólares às suas matrizes no exterior. Estamos tão globalizados que no resto do mundo a participação de capital estrangeiro nos bancos é de 5% em média – no Brasil chega a 22%.

                  Em princípio nada há de errado nisso: a globalização é um processo irreversível e fundamental para o desenvolvimento da economia mundial. Eu disse “em princípio” porque este processo somente será bom se for para todos.

                  Pois bem, há algum tempo, lendo o jornal “The Times of India”, encontrei a seguinte notícia:

“Era para ser uma simples compra de cinco jatos executivos da Embraer para transporte de autoridades. Mas quando os sete membros da Força Aérea Indiana chegaram ao Brasil para pegar os aviões foram comunicados de que estes não poderiam ser entregues devido a instruções dos Estados Unidos da América no sentido de que a Índia deveria concordar em não voar com os mesmos para 13 países: China, Coréia do Norte, Irã, Líbia, Síria, Vietnam, Cuba, Myanmar, Belarus, Somalia, Haiti, Libéria e Sudão. A resposta da Índia foi a de que as condições eram inaceitáveis”.

                  Que globalização mais esquisita! Lembrei-me também de uma outra notícia, publicada na Inglaterra pela BBC: preocupado com o aumento das relações comerciais entre o Brasil e a China, o governo norte-americano enviou a Beijing o Secretário de Estado Assistente Thomas Shannon, “para descobrir o que está havendo”.

O texto diz também que “o fluxo de negócios entre a China e o Brasil começou dois anos atrás, após uma troca de visitas entre o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva e o chinês Hu Jintao”.

E, mais adiante: “A política protecionista de Washington para a América Latina data de 1823, quando o presidente James Monroe decretou que nenhuma potência estrangeira poderia ter maior influência nela que os próprios Estados Unidos”. “E é assim que devemos olhar a América Latina”, declarou um congressista norte-americano à BBC.

Passados alguns dias li no jornal “Channel News Asia”, de Singapura, declarações do Embaixador chinês Zhou Wenzhong, anunciando o recuo de seu país nas relações comerciais que mantém conosco. Disse ele que “a China não será concorrente dos Estados Unidos na América Latina”, acrescentando que os investimentos chineses na região montam a modestos US$ 4 bilhões, enquanto que os dos EUA alcançam US$ 300 bilhões.

Tradução: a China continuará a comprar nossas riquezas, mas não esperemos grandes investimentos ou os efeitos da saudável concorrência que a globalização deveria estimular. Ou seja: deu resultados, a visita do emissário norte-americano à China!

                  E foi assim, ao ler em jornais estrangeiros algumas realidades desconhecidas pela maioria do povo brasileiro, que fiquei a pensar nas palavras do ex-presidente do Uruguai, Jorge Battle, no encerramento da Cúpula Econômica do Mercosul:

“É uma ficção esse tal de mercado global. Não há globalização no comércio mundial. Os protestos anti-globalização ocorrem justamente porque não há globalização, ou são poucos os que têm benefícios com esse fenômeno”.

                  Pois é. Lamentavelmente, ao abrir suas fronteiras e vender algumas de suas maiores riquezas a grupos estrangeiros, talvez o Brasil tenha se esquecido do sábio conselho de Benjamin Franklin: “ama teu vizinho, mas não derrubes tua cerca”.

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