140919072707_suicidioQuando se fala em suicídio no Espírito Santo, a primeira coisa que vem à mente é a Terceira Ponte e isso não é à toa. Nos últimos tempos, apesar da não divulgação jornalística, os casos no local têm se tornado mais comuns e a repercussão nas redes sociais têm sido massivas. Recentemente, em prova de corrida de rua, mais um caso foi registrado.

Nesta semana, a concessionária Rodosol, que explora o pedágio da ponte, apresentou projeto para instalação de barreiras de vidro em toda a extensão, visando colocar fim nestes casos e aumentar a segurança no local. A Secretaria de Estado de Saúde (Sesa) afirma que em 2016 foram consumados dez suicídios no local, quatro a mais do que em 2015. Ano passado, outras cinco pessoas tentaram, mas foram resgatadas pela Polícia Militar e os Bombeiros.

No total, em 2016 foram consumados 146 suicídios em todo o Espírito Santo, 26 a menos do que o registrado em 2015. Segundo os dados da Secretaria, o número correspondeu a 4,34% do total de 3.365 mortes por causas externas evitáveis no Estado, no ano passado. Do total dos suicídios, 75% (ou 109) foram de homens. Maria Carmen Viana, professora do departamento de Psiquiatria da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), explica que a maioria dos países seguem esta lógica.

suicidio“De um modo geral mulheres tentam mais suicídio e homens morrem mais. Os homens acabam utilizando os meios mais letais de cometer suicídio e têm uma agressividade maior nas tentativas com armas de fogo, principalmente, na precipitação de lugares elevados”, explicou.

No Espírito Santo, a maioria dos casos aconteceu na região Sul do Estado, que registrou um índice de 4,99 suicídios por cada 100 mil habitantes. Os principais municípios não foram citados pela Sesa, mas a característica é: colonização europeia, região montanhosa, clima frio e agrícola.

“A maior quantidade de mortes continua acontecendo nos municípios de interior. Depois do Sul vem a região Norte, com 3,76 mortes por cada 100 mil e só depois vem a Região Metropolitana, (3,58). Mas o número pode aumentar até o final do ano porque a equipe continua investigando algumas causas antes de bater o martelo. Vemos que a maioria das causas está ligada a municípios com maior escala agrícola e com uma presença maior de agrotóxicos”, afirma Edleusa Cupertino, referência técnica da Vigilância em Prevenção de Violência e Acidentes da Sesa.

Agrotóxicos
A psiquiatra explicou que, assim como no Espírito Santo, outros locais do Brasil quem têm colonização alemã, como municípios do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, têm taxas de suicídio mais elevadas. Ela afirma que o uso de agrotóxicos tem duas relações com o suicídio, uma direta e outra indireta: “O agrotóxico é um dos meios de obtenção do suicídio, principalmente para a população rural. A outra, em alguns tipos de agrotóxicos, é a associação com o aumento da depressão na população a eles exposta, o que pode desencadear no suicídio”, ressaltou.

Os dados da Sesa mostram que, em 2016, 71% das mortes foram por enforcamento, grande parte delas relacionadas indiretamente aos agrotóxicos, segundo Edleusa Cupertino. Em 2015, 51% dos casos foram por esta causa.

Depois do enforcamento, as maiores causas de suicídio dizem respeito a armas de fogo (11,5%), seguido de precipitação de lugares elevados (4,8%). De acordo com Cupertino, 90% dos óbitos relacionados a suicídio têm ligação com transtorno mental.

“É preciso identificar precocemente na atenção primária (à saúde) os casos vulneráveis, a pessoa com ideação suicida. A maioria das pessoas têm essa ideação bastante tempo antes. Pessoas com depressão, que fazem abuso de álcool de drogas, é preciso acompanhá-las e identificar essa ação onde haja assistência à saúde mental. Tratar depressão significa reduzir significativamente o índice de suicídios. Tratar o alcoolismo também , pois está associado a todo o tipo de morte violenta”, afirmou a doutora.

Edleusa Cupertino frisou que é responsabilidade dos municípios notificar a Sesa sobre casos de transtornos na atenção primária para que a Secretaria possa atuar em conjunto na prevenção dos casos de suicídio. Entretanto, de acordo com ela, muitos municípios não têm feito o dever de casa.

Tentativas aumentam em 2016
De acordo com os dados da Sesa, em 2016, no Espírito Santo, o número de tentativas de suicídio cresceu 21% em relação ao ano de 2015. Se, naquele ano foram 1.216 tentativas no Estado, em 2016 foram 1.541. Apesar da maioria dos casos consumados serem de homens, 72% das tentativas de suicídio foram de mulheres. Edleusa Cupertino associa a maior tentativa das mulheres à quantidade de agressões físicas que elas sofrem – foram 2.982 os casos de violência física registrada por mulheres – e a menor fatalidade à procura maior de ajuda.

A doutora Carmen associa as tentativas femininas à depressão. “As mulheres têm de duas a três vezes mais depressão do que homens”, afirma ela. E explica que as violências por elas sofrida culminam para o ato.“Qualquer forma de violência pode desencadear tanto transtorno pós-traumático, quanto episódios depressivos, altamente associados a suicídios”.

Cupertino afirma a violência produz efeitos psicossomáticos. “Desencadeia outras doenças como hipertensão, diabetes, aumenta o adoecimento e pode culminar nas tentativas de suicídios”.

A psiquiatra explica que a exposição de crianças a situações adversas aumenta o risco de transtornos mentais na idade adulta, além de outras doenças. “Prevenção da violência e exposição das crianças a situações adversas são extremamente relevantes para todos os níveis de saúde e desenvolvimento pleno das pessoas”.

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